terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pedido


Só lhe peço a delicadeza
De sorrir enquanto me odeia
Que espirre ou assobie
Em vez de falar o que pensa
Não quero nada de mais
Apenas a ignorância plena
Pois sei bem que as cicatrizes
Vivem mais que as verdades
E rezam ao pé da tumba dos sinceros

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O jantar



Para quem nunca havia comprado ricota na vida, pagar nove reais em uma parecia um absurdo. João pegou uma, outra e outra, apertando-as e olhando o preço. Todas tinham meio quilo. Surpreendeu-se com uma mulher adivinhando-lhe o pensamento. Não podia ter um pedaço  menor? Em casa, só eu como, disse ela. E ele concordou sem dizer nada, com o mesmo sorriso constrangido que fazia para todos os estranhos que resolviam falar com ele em locais públicos.
No caso dele, a ricota fazia parte da receita e ele resolveu segui-la à risca. Dentro do possível. Era um penne ao molho de espinafre e ricota, com salmão e manteiga de ervas. No lugar do espinafre, que havia acabado, comprou algo que lhe pareceu rúcula. E resolveu trocar o penne por um macarrão em formato de gravata borboleta.
Como os pedaços de salmão disponíveis no mercado eram grandes demais para duas pessoas, resolveu levar outro peixe. Revirou o congelador e acabou levando um saco com três filés de Saint Peter. Agora, em vez do prato da receita, teria macarrão gravata ao molho de espinafre e ricota, acompanhado por filés de Saint Peter com manteiga de ervas. Também lhe pareceu bom.
Só faltava o vinho. Escolheu um português que, fora da promoção, custaria pelo menos dez reais a mais. Definitivamente, era um bom negócio.  
 Quando passava as coisas no caixa, que era operado por uma moça sorridente e prestativa, que parecia nova no emprego, recebeu uma mensagem no celular. Precisava correr para que estivesse tudo pronto quando ela chegasse em casa.
Distraído pensando em que música colocaria para tocar no jantar, esqueceu de ir empacotando as coisas enquanto a caixa registrava os produtos. Despertou do transe ao ver na tela do caixa que as folhas que comprara eram na verdade agrião. Mais uma modificação na receita. Agora, teria de ser macarrão com agrião e ricota.
Estava chovendo um pouco quando saiu do mercado. Desceu a Rua Veridiana numa passada rápida e parou de repente ao ver, no jardim de um condomínio, pequenas flores roxas que não sabia o nome. Apenas algumas delas, no centro da mesa, dentro de uma garrafa vazia qualquer, eram o que faltava para tudo ficar perfeito. Esperou por alguns momentos até que uma idosa, que se locomovia lentamente com ajuda de uma bengala, virasse as costas. Então, enfiou a mão por entre as barras do portão e alcançou um punhado de flores.
A ntes que arrancasse a planta do canteiro, viu um clarão e sentiu um calor percorrendo seu corpo. Os músculos se comprimiram e já não distinguia bem o que via. Sua mão esquerda apertou-se ainda mais sobre o caule das plantas, enquanto o resto do corpo estremecia naquela coreografia ditada pela descarga elétrica.
O vinho espatifou-se no chão. Uma universitaria que voltava da aula antes da hora quase tropeçou em João. À primeira vista, achou que o líquido que escorria pela calçada até juntar-se ao esgoto no meio fio era sangue.
Gritou por socorro e logo João estava cercado de curiosos. Dois moleques só não reviraram as coisas dele em busca de algo de valor porque algumas mulheres estavam muito próximas, uma delas chorando depois de ver o pequeno buquê de flores esmigalhado na mão dele. Outra ajoelhou-se para começar a rezar, mas deu um pulo quando o celular dele começou a tocar uma música alegre. Ninguém teve coragem de atender.