sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Um conto sobre dias muito loucos
sexta-feira, 15 de abril de 2016
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Poema de carnaval
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
A baleia
Quando a baleia encalhou na praia, não havia quase ninguém. Foi chegando como um estrondo, esguichando água para o alto e rangendo como um navio. Era enorme, sua sombra projetou-se sobre a areia e esticou-se pela praia.
Quem se aproximou primeiro do animal foi um moleque. Era um moleque preto de sol, magrelo, que corria sozinho de um lado para o outro e deu de cara com o bicho. Ele se aproximou sem muita coragem, o gigante debatia-se, a cauda fazendo chover sobre sua cabeça. O menino tentava se aproximar e tocá-la, sem nunca cumprir seu intento.
Depois chegou o casal de turistas. Era um sujeito grisalho, de óculos, pinta de intelectual, muito magro, vestindo uma bermuda e uma camisa florida. Parecia um gringo, mas era brasileiro, falava em português com a mulher que o acompanhava. Ela era pelo menos dez anos mais jovem, magra, o cabelo muito liso preso num rabo de cavalo.
O casal vinha caminhando pela praia quando deu de cara com o animal. O menino não estava mais lá, havia saído correndo com pressa minutos antes. Ambos pareciam maravilhados com aquele vulto negro de pele viscosa. O homem pegou o telefono celular e ligou para alguém.
Nesse meio tempo o moleque voltou com dois adultos, ambos munidos de facões. Antes que os dois se aproximassem, o homem grisalho se postou na frente deles, tentava impedir que se aproximassem. Houve uma discussão acalorada.
O moleque observava a discussão de longe, assim como a namorada do homem grisalho. Ambos pareciam amedrontados e intimidados. A baleia gritava, como se fosse um humano com a barriga aberta de uma ponta a outra.
Havia também o pescador calado. Ele observava a discussão e, por vezes, andava de um lado para o outro. Parecia estar com pressa, precisava voltar logo ou tinha vontade de ir ao banheiro. Batia o pé direito no chão.
Os dois homens pareciam perto de chegar a um acordo quando o segundo pescador se aproximou dos dois e enterrou o facão na barriga do homem grisalho. A mulher gritou, mas a voz dela foi encoberta por um gemido agudo dado pela baleia, fazendo a cena parecer a um filme mudo.
O menino observava tudo em silêncio, enquanto o segundo pescador se afastava, ora com pressa ora calmamente. Não olhou para trás.
O primeiro pescador pegou o menino pelo braço e se afastou correndo. A maré estava subindo e as ondas agora encobriam o gemido da baleia, cada vez mais baixo, e os gritos da mulher, cada vez mais altos.
A mulher arrastou o homem, a duras pelas, pela areia. Ela caía, levantava e continuava a arrastar o sujeito. O sangue dele deixava um rastro avermelhado, que aos poucos ia desaparecendo. Ela demorou a desaparecer da praia.
Não havia mais ninguém quando eu me aproximei. O mar havia se acalmado, as águas estavam reluzentes e mais azuis do que nunca. O vento arranhava meu rosto.
Cheguei bem perto da baleia, ela gemia baixinho. Tinha a pele muito brilhante, de um cinza azulado. Era a coisa mais linda que eu havia visto na vida. Então eu coloquei a mão na cintura, peguei minha pistola 380 e mirei bem naquela cabeçona. Olhei por alguns segundos para aqueles olhos tão tristes e pequeninos e apertei o gatilho. Só parei quando as balas acabaram. Foram quinze ou dezesseis tiros.
Não quis mais olhar para o que havia restado da baleia, ela ainda gemia, um som quase imperceptível, mas eu não tinha mais balas.
Virei as costas e ouvi o mar rosnar atrás de mim.
sábado, 4 de janeiro de 2014
A cópia
Ana só queria ter um interruptor no próprio corpo. Assim, poderia desligar-se assim que chegasse do trabalho e descansar até o dia seguinte. Como esse dispositivo ainda não havia sido inventado, depois do expediente de 16 horas na redação ainda era obrigada a atender telefonemas sobre as reportagens do dia e da manhã seguinte.
Depois de uma dessas ligações, para avisar que teria de entrar duas horas mais cedo no dia seguinte, tentou se esconder do mundo dentro de uma folha de jornal. Após alguns segundos submersa, ela retirou o jornal da cabeça e, por acaso, teve a atenção pescada por um anúncio dos classificados. A propaganda dizia: "Acha que o dia deveria ter 48 horas? Adquira seu próprio clone".
A princípio, pensou que aquilo daria uma boa matéria. De noite, sonhou consigo mesma dividida em vinte partes, todas ela indecisas sobre qual roupa usaria ou se aquela cor de batom era a correta. Foi interrompida pelo interfone, que estava quebrado e mais parecia um peido a ecoar pelo apartamento de 60 metros quadrados na Santa Cecília.
Era o motorista do jornal. Ela desceu sem tomar café da manhã e deu um bom dia descabelado ao motorista do Renault prata que a esperava. Assim que o homem deu partida no veículo, encostou a cabeça no vidro do veículo e dormiu, cabeça trepidando no vidro pelas ruas esburacadas. A missão do dia era, com a ajuda de um pé de cabra, vistoriar trezentos bueiros da cidade para a seção Guardião, do diário em que trabalhava, o jornal popular Pra Já.
Conseguiu vistoriar apenas 237 bueiros, dos quais apenas cinco encontravam-se em condições satisfatórias. O anúncio sobre o clone já havia se esvaído em meio à bosta e aos ratos que vira durante todo o dia e naufragaria ali mesmo não fosse uma nova ligação. A chefia informava que a pauta dos bueiros seria cancelada por ordem, e sem explicações, do diretor de redação. No lugar, ela teria que verificar no dia seguinte a situação de quinhentas lixeiras da cidade.
Abriu um jornal do dia que estava no banco traseiro do veículo. Ligou no impulso, sem esperar nada. A atendente era boa de papo e prometeu-lhe que o pagamento seria suaves prestações, durante vinte anos, e ainda ganharia uma máquina de fazer pipoca para desfrutar junto com o clone nos momentos de folga. Estava decidida a dizer não, mas, ao ver que a redação ligava para ela novamente, mudou de ideia. Em no máximo cinco dias úteis, prometeu a atendente, o clone estaria no endereço dela. Era preciso estar em casa para assinar e receber o manual de instruções.
A entrega chegou depois de três dias. De fato, o material era de boa qualidade. Assim como ela, uma jovem de vinte e quatro anos, um metro e sessenta, cabelos curtos e lisos na altura do ombro. Tinha um olhar de surpresa como o dela, com a diferença de que estava totalmente descansado. Como era filha única, Ana teve a sensação de ter ganhado uma irmã. Na primeira noite, as duas foram dormir tarde depois de passar horas pintando as unhas de cores iguais.
Ana precisava acordar cedo. O clone só passaria a trabalhar na outra semana, depois que ela explicasse os detalhes do trabalho. Se bem que no manual constava que o clone possuía exatamente as mesmas habilidades que ela e ainda outras que haviam sido incluídas, como assoviar e fazer contas de divisão com vírgulas.
O clone insistiu em começar antes.
- Não aguento mais ficar enclausurada nessa casa sem fazer nada. Você precisa arrumar algum hobbie e me deixar trabalhar.
De fato, Ana ainda pensava o que faria no tempo livre. Como o manual dizia que o clone tinha limitações caso colocado sob carga de trabalho extenuante, ela havia definido que trabalharia dia sim, dia não. Sua cópia faria o mesmo. Isso evitaria sobrecarregar a outra e ainda dava tempo para que ela começasse a natação, o boxe, a patinação, o piano e as aulas de gastronomia, como sempre havia sonhado.
No primeiro dia de trabalho do clone, Ana deixou o próprio celular com ela e prometeu ficar em casa de prontidão. Qualquer problema, dúvida, qualquer coisa, era só ligar. Não foi preciso.
A cópia ganhou elogios do editor. Escrevia bem e era tão cuidadosa quanto ela com as informações. No primeiro dia de trabalho, passou-se por parente de um doente em um hospital e flagrou uma situação de completo abandono dos pacientes, em macas no chão e sem as mínimas condições de trabalho.
Em casa, as duas combinavam as reportagens que fariam no dia seguinte. A visibilidade de Ana duplicou dentro do jornal e, finalmente, ela recebeu seu primeiro aumento. Nos fins de semana em que não trabalhavam juntas, as duas saíam à noite e se divertiam com as cantadas que as gêmeas recebiam na balada. Uma noite, Ana acabou voltando para casa sozinha depois que a outra resolveu sair com um carinha que as duas haviam achado uma graça.
O telefone dela tocou logo cedo.
- Onde está você, Ana, esqueceu do trabalho?
Ela havia acabado de chegar da academia. Como não conseguiu fazer contato com a cópia, correu para o jornal bolando a desculpa para o atraso. Inventou que estava em uma consulta médica e chegou toda esbaforida. Não via a hora de chegar em casa para dar um esporro daqueles no clone.
- Você me deixou na mão - disse para a outra.
- Estou de saco cheio de ficar sendo escravizada. Para você levar o mérito!
- Nós duas levamos o mérito!
- Não, só você leva, é o seu nome que sai lá. Eu não tenho nem nome.
A outra saiu batendo a porta. Voltou depois de alguns minutos, com a mão estendida.
- Preciso de algum adiantado para o hotel?
- O hotel? E o que eu te dei ontem?
- Querida, o custo de vida de São Paulo é um dos mais caros do mundo. Você não leu a nossa matéria no jornal da semana passada? Matéria, aliás, que eu fiz para você.
Ana deu à outra tudo que tinha na carteira. Nos dias seguintes, não conseguiu fazer contato com ela. Foi ao trabalho todos os dias, como antes, com medo de que a cópia não desse as caras. O instinto dela havia acertado. Assim como ela, o clone devia ser do signo de touro.
- Aquela cabeça dura!
Até que estava aliviada em se livrar daquela víbora mal agradecida. Pediria seu dinheiro de volta e eles que se virassem com aquele clone mal feito. Se fosse uma cópia idêntica, não seria tão preguiçosa!
Dias depois, encontrou uma correspondência do escritório de advocacia de Altemar Gomes e Associados. Era uma notificação extra-oficial de que devia o equivalente a dois anos de salários à cópia. A correspondência contabilizava dias trabalhados pela outra, dias não trabalhados e ainda horas extras, que o jornal não pagava.
Em um telefonema ao advogado no dia seguinte, desesperada, Ana insistiu em falar com o clone. Só podia estar acontecendo algum mal entendido.
- Nem pensar. Não pago, não pago nada para essa aí - disse ao advogado.
- Essa era nossa última oferta. Assim que dermos entrada no processo judicial, ficará impossível para a senhora voltar atrás. Passe bem.
A audiência de conciliação foi um mês depois. O juiz, um homem aparentemente indignado com a exploração sofrida pela outra, não deu chance de defesa para Ana. Se pudesse, o magistrado teria mandado prendê-la. Ordenou um pagamento 25% maior do que o advogado havia proposto. O valor foi mantido por instâncias superiores, que negaram todos os recursos de Ana.
Para pagar o valor das parcelas, ela acabou tendo de arrumar um bico para revisar textos de uma editora de livro didáticos destinados a escolas públicas. Com bastante frequência, após o expediente, esquecia algumas páginas e deixava passar erros grotescos ali.
Tamanho era o ódio da outra que passou a tomar calmantes para dormir e anfetaminas para acordar. Às vezes, mais parecia um zumbi. Ainda tentou trabalhar como garçonete nos fins de semana de folga para conseguir mais dinheiro, mas foi despedida após derrubar uma bandeja cheia de taças de vinho sobre duas madrinhas de um casamento.
Conseguiu cancelar a compra do clone, que tinha garantia anti-emancipação, mas não se livrou dos salários atrasados. Três anos depois de começar a pagar as parcelas, estava prestes a se ver livre das dívidas, quando recebeu um aviso judicial de que os pagamentos seriam estendidos por tempo indeterminado. É que a cópia acabara de ser aprovada no programa de mestrado de jornalismo literário, em Lisboa, como Ana sempre havia sonhado. Deixou a carta de lado e riu, como não fazia há anos, um riso que fazia a barriga doer e os poodles da vizinha latirem.
domingo, 24 de novembro de 2013
Filtros
sábado, 14 de setembro de 2013
Confiram a crítica da revista Rolling Stone
O Ato de Riscar um Palito de Fósforo
Artur RodriguesPatuá- Rolling Stone:
Em texto recente em seu blog, o jornalista Artur Rodrigues diz que “carrega um baderneiro interior, um pequeno anarquista”. Essa inquietação fica evidente em cada página da estreia do repórter como contista. Mas o grande trunfo do livro é a autocrítica. Ele sabe que seu pequeno anarquista tem um forte antagonista, também interior ou, como ele diz, “o sujeito no espelho, buscando diversão, alívio, conforto, felicidade, admiração, seja lá o que for”. É isso que humaniza a visão de Rodrigues sobre os objetos da ficção que escreve – toda ancorada na experiência que carrega como repórter policial. Oscilando entre o realismo quase naturalista e um surrealismo quase verossímil, Rodrigues é como seus personagens: alguém, como qualquer alguém, que age sob o signo do conflito. Não há julgamentos morais: apenas observação. Em “Motoqueiro”, o mais potente dos 18 contos, esse conflito atinge o auge: dois amigos, um traficante e um policial, perseguem uma dupla de motoqueiros matadores de inocentes na periferia. Quando os encontram, vem o choque – trata-se de fantasmas. O policial diz: “Essa porra dessa cidade tá matando a gente”. Ou serão nossos próprios demônios o que nos mata?
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Divórcio e a reconstrução da realidade
Comecei a ler o romance Divórcio, de Ricardo Lísias, na tarde de domingo. Com alguns intervalos para trabalhar e dormir, só fiz isso até a noite de segunda-feira, quando terminei.
A obsessão do narrador pelo diário da ex-mulher, que encontra por acaso em uma gaveta, contagia o leitor logo nas primeiras páginas. O voyerismo que envolve quem acompanha os registros da ex-mulher e a reação do ex-marido é gradualmente substituído pelo fascínio criado pelo domínio narrativo do autor.
Por meio de constantes repetições dos trechos, típicas de alguém que está remoendo mentalmente um evento traumático, o personagem vai destrinchando a figura superficial da mulher jornalista e um lado obscuro do jornalismo de entretenimento. Tal qual Chico Buarque, em Construção, reordena as frases e recria significados.
"Confesso que, logo que li o diário, tive o enorme impulso de mostrar para todo mundo quem de fato é minha ex-mulher. Vejam que moça mais legal. No entanto, logo depois eu me vi morto. Toda minha energia então ficou voltada para me resgatar do que me parecia ser a antessala de um necrotério. A conclusão é obrigatória: a literatura é agora parte vital não apenas da minha vida simbólica, mas até do meu corpo", escreve a certa altura do romance.
Dessa forma, uma história doméstica acaba se tornando uma experiência metalinguística em que o autor Ricardo Lísias reflete sobre o narrador e o personagem Ricardo Lísias. E é desse excesso de realidade, de eus, que emerge uma poderosa ficção, que, ouso dizer, recria o próprio autor.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
A repercussão de "O ato de riscar um palito de fósforo"
Artur Rodrigues fala da sua periferia fantástica em novo livro
Narrativas curtas de cortes variados
Com uma ficção fortemente ligada aos temas da cidade,repórter do ‘Estadão’ lança livro amanhã
Artur Rodrigues lança novo livro
Repórter do Estadão leva bastidores do jornalismo para livro de ficção
O Ato de Riscar um Palito de Fósforo, livro de Artur Rodrigues, será lançado em São Paulo
quinta-feira, 2 de maio de 2013
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Gente de bem
– Estamos fazendo o melhor para todos, o mais fácil era ficarmos parados, afinal...
sábado, 23 de fevereiro de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Pedido
Vivem mais que as verdades
E rezam ao pé da tumba dos sinceros
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
O jantar
domingo, 27 de janeiro de 2013
2666, o mundo todo num livro incompleto
domingo, 23 de dezembro de 2012
Beliscão
sábado, 10 de novembro de 2012
A nuvem no concreto
Tem dias em que nem o céu azul adianta. Os milagres parecem obrigação, o amor vira só um clichê e mesmo o ar é indigesto dentro do peito. Um filé mignon revirava no meu estômago, no trajeto entre o restaurante em que almoçava todos os dias e o escritório onde trabalhava há 15 anos, quando vi algo diferente.
Era uma nuvem de gente, que flanava desordenadamente à minha frente. Ao chegar mais perto, percebi que se tratava de uma multidão de viciados que nunca havia visto antes. Eram esqueléticos e sujos, lembravam zumbis, mas tinham um desapego que eu, depois de fazer aquele mesmo caminho durante tantos anos como um cavalo adestrado, invejei.
Resolvi passar no meio deles, só para ver. Ali no meio, mesmo perfumado e de roupa social, não me trataram com nenhuma distinção. Ofereciam-me pedra de 2, de 5, de 10 e eu ia desviando de um e de outro. Meio que de brincadeira, tirei dez reais do bolso e dei na mão de um homem de boné vermelho, que segurava uma pequena caixa de som na qual tocava uma música de um ritmo estranho e repetitivo. Não pensava em fumar aquilo, era só uma espécie de flerte, como quando aceleramos o carro demais para depois frear.
Mas fiquei sem reação quando o sujeito colocou o cachimbo na minha boca e o acendeu. Não posso me eximir do que fiz depois porque dessa vez eu não pisei no freio. Acelerei mais. Estava muito quente e queimei os meus lábios. Aspirei fundo e me senti intoxicado. Logo depois, me parecia perfeitamente natural flutuar de gravata por uma rua no centro de São Paulo. Aquela gente tão feliz que me cercava parecia entender tudo que eu pensava. As crianças brincavam comigo como se eu fosse um balão, leve, leve, leve. Pelos meus bolsos escorregavam metas, obrigações, educação, bom senso, fundiam-se numa substancia líquida que escorria na direção de um duto de esgoto.
E o sorriso quase não cabia no meu rosto. Até que ele se desfez e uma espécie de câimbra começou a chacoalhar os meus músculos. Antes que a bolha de sabão que me envolvia estourasse, uma pessoa luminosa ofereceu-me um trago e me dei conta que jamais participara de tamanha irmandade - nem minha família conseguira me acolher assim dessa maneira, como se dezenas de pessoas me abraçassem ao mesmo tempo, sem qualquer cobrança ou olhar de reprovação. Sentei-me na calçada, ao lado de uma senhora numa cadeira de rodas e comecei a brincar com o cachorro dela. Pela primeira vez na vida, não tinha pressa. E finalmente eu era muitos, era ninguém, não era.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Pápum
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Silêncio
Não basta eu abrir a porta e ir embora. O céu ainda será moldado por essas janelas, o barulho da chuva continuará a batucar sobre as telhas e alguém respirará esse mesmo ar que eu respiro. Mesmo que esteja longe daqui – não consigo entender por que todos vocês me olham tão assustados quando digo essas coisas – mesmo que eu esteja a um zilhão de quilômetros daqui, o estrago estará feito. As raízes espreguiçaram-se por terrenos pantanosos, espalharam-se por tudo, que já não é possível plantar um pé de feijão que seja no meu peito. O pomar continua dando frutos, que caem e apodrecem gerando mais árvores e mais frutos, e o cheiro torna-se cada vez mais insuportável, e não há nada, não, nada, que possa ser feito a essa altura, quando tudo não para mais de apodrecer, mesmo o que ainda está para nascer. Não, não basta que eu feche os olhos, tape os ouvidos, prenda a respiração. Sei que vocês me olham muito incomodado por dizer tudo isso assim, no meio de seja lá o que for de mais importante que vocês tenham a fazer, posso ver os dedos de vocês coçando para carimbar, grampear, rubricar, adivinho a música das teclas dos telefones, o deslizar das cadeiras pelo piso frio, as dobradiças enferrujadas reclamando, suas mentes repetindo: inconveniente, inconveniente, inconveniente, mas, para ser sincero, essa impaciência toda me entretém. Sei que sou só um nesse caminho, não importa que tenha inventado a lava, a água, o enxofre. Não importa que tenha visto vocês pequenos, rindo feito maçãs e abutres, comendo feito esterco e baratas, crescendo feito nuvens e orvalho. Não importa que vocês não fossem nada, sei que agora vocês olham e pensam, julgam, acima de tudo, julgam, sentados, andando para um lado e para o outro, rezando aqui e ali, implorando nesse canto e naquele. A verdade é que não basta mais que eu vá embora, nem para mim nem para vocês. Não basta que esqueça esse planeta cada vez menos azul nesse canto do mundo, que transforme tudo isso em poeira no meu pensamento. Tem que acabar. Enquanto tudo isso continuar existindo, corroendo-me, mesmo que confortavelmente num sótão qualquer, eu mesmo existirei pela metade. Para que eu tenha sossego novamente – e não pensem que me comovo com seus choros e pragas, arrependimento, abraços, lágrimas, apelos, promessas – para que, bem, para que, é preciso que eu ponha um ponto final em tudo, não uma vírgula, um ponto final para que só sobre minha paz e o silêncio.



