quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O Galo
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Nuvens, cantem o barulho da chuva
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
À deriva
domingo, 17 de janeiro de 2010
Psicografia
Idéia nenhuma. Idéia nenhuma passa pela minha mente. É só um poço, cheio de ecos e estampidos de memórias. Sonhos que pedem socorro, amordaçados, eles parecem ridículos, ridículos. E aqui estou psicografando, psicografando esse vazio que só pode vir do além. Dramas longínquos cospem desaforos na minha cara. E eu escrevo a lápis, a lápis.
Acendo dezenas de cigarros e sinto o meu pulmão se esvaindo e o acendo também. Acendo uma tocha e boto fogo na casa e saio apagando as faíscas só pra passar o tempo.
Eu espero por ele. Sempre tenho que esperar. Mas ele nunca chega na hora, jamais. Diz que o tempo é muito diferente lá de onde vem. Diz tudo isso muito galantemente. De uma forma que faz toda essa minha impaciência parecer criancice. Me masturbo só pra passar o tempo também.
O melhor é ir até a cozinha e esquentar um café. Se ele vier agora terá de esperar, ou toma café comigo, ou nada feito. No ínfimo espaço de tempo em que coloco a água para esquentar, vejo minha vida passar sob uma trilha sonora de estalos até que me sinto esguio e poderoso, flutuando no gozo de alguém que não cheguei a conhecer. Eu tenho vontade de voar e o meu rabo rema vertiginosamente. Não posso controlar minha velocidade. Sou o mais rápido, não posso parar. Mas eles estão me alcançando, então eu volto, volto, volto, até uma caverna escura que acaba numa explosão. Meu visitante, certamente, tem noção do que é essa plenitude, a plenitude do big-bam, dos drive-ins, das coxias, dos cantos escuros.
Meu café ficou horrível.
Fico relendo os capítulos anteriores. Magníficos. Pena que dependo dele. Gostaria eu de poder fazer isso quando quisesse. Ligaria um interruptor no meu umbigo e escreveria as sentenças mais criativas e trama mais envolvente se encadearia sob custódia da irracionalidade dos meus dedos ágeis, que trotam irregulares pelo teclado do computador. Mas ele não usa computador. Só escreve a lápis. Não consigo, sinceramente, me conformar que um ser tão evoluído não tenha se acostumado com o computador.
Lembro que da primeira vez ele insistiu que eu comprasse uma pena e um tinteiro. E eu ainda não fazia idéia de como ele podia ser cabeça dura. Ainda estava pasmo com o abismo de possibilidades que ele me abriria com aquele gesto estranho que sempre faz. Uma coçada no nariz, sem o uso das mãos. Um cacoete deveras interessante, tenho que admitir. Ouço um barulho lá embaixo, mas não é ele. Ele chega sem barulho algum, sem o menor aviso, e envolve o ar com seu cheiro de eternidade. Sei que ele está perto, posso senti-lo. Então desço e vou preparar o seu jantar. A noite está gelada e os cachorros latem. Abro o quartinho dos fundos e acendo a luz. Dessa vez arrumei-lhe um belo jantar. Não há motivos para reclamações. Levanto aquele corpo amolecido e carrego-o nos ombros. Suas pálpebras piscam, mas sei que não vai acordar. Subo as escadas e coloco-o na cama - sinto sua presença no ar. As paredes mudam de cor. Minha mão coça para escrever. Meus nervos sabem muito bem, agora, o caminho para posteridade.
Como sempre, está muito bem vestido. Faz um sinal de aprovação ao olhar sua presa em cima da cama. Digo-lhe para retribuir em mais um capitulo fenomenal. Mas ele já está ocupado, devorando sua refeição. Come sem fazer barulho e chupa as entranhas com gosto. Rói cada osso e, como sempre, me espanto com o jeito com que enfia o fêmur pela garganta, feito um engolidor de espadas.
Encosta ao meu lado, lambendo os beiços finos, e elogia minha escolha, sem abrir a boca. Poderia explicar o trabalho que me deu, mas ele sabe, sabe de tudo. Posso sentir toda sua sabedoria quando coloca as mãos sobre meu ombro e eu começo a escrever vertiginosamente. Página após página é como se fosse o jorro inicial, como se ele tivesse o dom de arrebentar a comporta dos pensamentos do universo e todos estivessem ali, à minha disposição. As horas passam e eu vou me sentindo cada vez mais pleno e as páginas vão se empilhando à minha frente. Até que me sinto vazio, a comporta se fecha, e eu caio no choro, num choro de soluços desesperados, na abstinência de sua presença. Apago sobre as folhas, com lápis na mão, apago como se estivesse morto.
Acordo grogue, e sinto ânsia do cheiro acre que desprega do quarto. Minha cama desarrumada, meus pensamentos também, a tentação do suicídio na primeira mijada, o banho quente que parece lavar minha alma, se é que eu ainda tenho uma. As folhas empilhadas.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
AS BELAS DO TRÁFICO *
Georgeta, em ensaio na prisão. Foto: Marcos Michael/JC ImagemTraficantes nigerianos viram na jovem a chance de lucrar mais de 1.000% ao levar cinco quilos de pasta-base de cocaína do Brasil para a Itália. Mulheres bonitas, de classe média e sem envolvimento com o crime, como Georgeta, são alvos cada vez mais frequentes dos aliciadores, diz a polícia. “Os traficantes procuram pessoas acima de qualquer suspeita, de boa aparência, que não despertem desconfiança”, diz o delegado do Departamento de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) da Polícia Civil Luiz Andrey.
“Foi a tentação que me trouxe até aqui”, conta a romena, em português quase perfeito, aprendido no Brasil. Por tentação, entenda-se a chance de ganhar 2 mil. Mesmo recebendo mesada da mãe que foi para a Itália trabalhar para pagar seus estudos, Georgeta arriscou. Viajou a Itália, São Paulo e só viu o mar da costa pernambucana pela janela do avião. Acabou presa pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional do Recife, há oito meses.
Vestindo calça jeans justa, uma regata branca e maquiada, ela e outras duas reeducandas, como preferem ser chamadas, despertaram olhares de inveja – e até de cobiça – dentro da Colônia Penal Feminina do Recife, na última quarta-feira, durante sessão de fotos. “A gente já sofre tanto aqui dentro que se arruma só para mascarar a tristeza”, diz Georgeta, que tenta manter a beleza mesmo sem os cremes e xampus que enchiam a penteadeira de sua casa, em Suceava, na Romênia. A maior saudade, porém, não é dos cosméticos, mas da família. Mesmo ganhando pelo trabalho como secretária na colônia, Georgeta ainda recebe mesada da mãe.
Vestindo um curtíssimo vestido preto, A.C., 24, também faz da vaidade seu consolo. O salão de beleza da colônia dá conta da escova no cabelo e da pintura das unhas, que paga com o salário que ganha trabalhando na lanchonete, mas ela ainda sente falta da depilação. “Só tem o básico aqui”, diz a moça, que, por necessidade, trocou a cera quente pela gilete na prisão. Antes de ser presa pela PF com dois quilos de cocaína, a então aluna de pedagogia transportava a droga com a confiança de quem nunca havia sido parada pela polícia. “Acho que entrei nisso por causas das amizades. Era muito dinheiro”, justifica-se.
Patricinhas do tráfico, Georgeta e A. são exceções. Entre as detidas por esse tipo de crime, a maioria é pobre e tem na sua história um amor bandido. “Os criminosos, mesmo os assaltantes, passam a lidar com tráfico quando são presos. Isso porque quem vai correr o risco são terceiros, que muitas vezes são mulheres”, afirma o delegado Carlo Marcus Correia, da PF. Essa estratégia pode ter ajudado no aumento de 233% da população carcerária no Estado, que passou de 300, em 2002, para cerca de 1.000 este ano. Entre essas detentas, uma em cada seis foi detida por tráfico.
O livro Amor bandido - as teias afetivas que envolvem a mulher no tráfico, da professora da Universidade Federal de Alagoas Elaine Pimentel, confirma a tese. “Não é só uma questão econômica. As mulheres entram para o crime também por afeto, pelo homem que amam, pela família”, afirma. Ela revela que, ao traficar, há mulheres que acreditam não estar cometendo crime algum. “O discurso mais comum é: ‘Crime é matar e roubar. Vendo a minha droga, só compra quem quer’”, diz.
A história de Ana Paula Silva, 25, parece ter saltado do livro de Elaine. Ela apaixonou-se por um criminoso aos 14 anos. Acusado de assalto e homicídio, o marido passou só o primeiro dos 11 anos do casamento em liberdade. “Nunca quis abandoná-lo para não ser covarde. Não precisava do dinheiro, só queria ajudá-lo”, diz. Com dois filhos e uma década após o início do romance, foi presa no fim de 2009. “Escutas me flagraram falando com meu marido no telefone. Eu não traficava diretamente, só levava um telefone ali, fazia depósito bancário”, conta ela, hoje a padeira da colônia, que garante ter posto um fim no amor que a levou para trás das grades.
sábado, 26 de dezembro de 2009
A partida
domingo, 6 de dezembro de 2009
Aos 30
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Amor incandescente
O odor forte havia dominado o ambiente. Pegou a caixa de fósforos. tirou um palito e riscou. O fogo tomou conta. O calor insuportável em todas as partes do corpo não impediu que ela se deitasse na cama e abraçasse com força o corpo de Francisco.
A sensação dos pés pegando fogo acordou o homem forte, que, naquele momento, se sentiu imobilizado. Ouvia alto – e nunca conseguiria esquecer daquilo – o choro. As três vozes se fundiam em uma só dor.
Francisco gritou o mais alto que pôde. Tentou se livrar de Maria, que o agarrava com uma força que não tinha. "Vamos morrer todos juntos", gritava a dona de casa em chamas. Os vizinhos ouviram. Mas demoraram a sair. A explosão do botijão de gás, o barulho de coisas caindo, os gritos. Parecia um tiroteio.
Mas, enfim, o primeiro que botou a cara para fora viu que era incêndio e chamou outros três para tentar o resgate. Todos eles demoraram a conseguir que Maria soltasse o marido. Tempo suficiente para os filhos do casal, Jeferson, 6 meses, Jéssica, 2 anos, e Rodrigo, 6, morressem carbonizados.
O casal foi salvo. Maria correu para não ser linchada e acabou 'escoltada' pela polícia até a cadeia. Detida, a mulher que até então fora boa mãe se justificou. Matou por amor ao marido. "Ele tinha uma amante".
Coluna Arquivo do Crime, publicada em 2006 no Diário do Grande ABC
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Falta
domingo, 15 de novembro de 2009
Olhar da Lua
sábado, 7 de novembro de 2009
Teatro, adultério e uma arma carregada*
A história que terminou em tragédia começou como história de amor. Numa terra distante, com muitos sonhos e planos. Ele, o ator brasileiro, conhecera ela, a fotógrafa francesa, em Paris. Era 1973. Paralelamente à fotografia, Anne Marie Hellen dava aulas de português e espanhol. Tinha, então, 29 anos. Marcelino era quatro anos mais novo e tentava a sorte no teatro francês. Ia razoavelmente bem, atuava em peças do circuito parisiense e trabalhava também criando trilhas sonoras para os espetáculos.
Brasileiro, artista e negro, Marcelino não era bem o que a família de Anne Marie tinha como um bom partido. Os dois sofriam com a pressão dos parentes da francesa, mas estavam apaixonados e seguraram a barra. Três anos depois, casaram-se.
***
Não duraria muito a felicidade do casal. A fotógrafa parecia ter uma certa predisposição a fazer confidências um tanto perturbadoras ao ator. Ela revelou que costumava fazer sexo com os amigos dele, mesmo depois de casados. Marcelino revidou e confessou que também a traía. Ela foi mais longe: contou que um outro namorado brasileiro, na época em que vivera no Brasil, havia se suicidado porque, assim como Marcelino, não conseguia dar o conforto que ela exigia. As brigas multiplicavam-se.
O relacionamento caminhava para o fim quando decidiram mudar para Nova York, nos Estados Unidos. Era um jeito de se verem longe da pressão da família dela. Sem sucesso. Meses depois da mudança, os pais de Anne Marie desembarcavam na América. Era demais para Marcelino. Voltaria para o Brasil. Ela, para a França.
Não conseguiram ficar muito tempo separados. Logo chegava à casa de Marcelino uma carta de Anne Marie. Ela pedia que o ator voltasse à França, para que pudessem tentar novamente. O pedido foi atendido e, novamente, os familiares da fotógrafa voltariam a atormentar o casal. A solução encontrada pelos dois foi uma nova mudança. Dessa vez, o destino era o Brasil.
Marcelino e Anne Marie viveram por um tempo na casa dos pais do ator. Depois, alugaram um apartamento no Centro de São Paulo. A francesa começava a montar seu estúdio de fotografia. Ele conseguiu um papel na peça Barrela, obra de estréia de Plínio Marcos.
***
A arma que o ator mantinha apontada para a cabeça naquela tarde de domingo era usada na peça. A história era sobre um jovem de classe média que, preso, divide a cela com mais quatro. O rapaz é estuprado por todos e, quando sai da cadeia, resolve se vingar. Mata um por um. O papel de Marcelino era de menor importância, mas seu personagem tinha uma arma, de verdade. As balas ele arrumou com um amigo. Queria dar uns tiros, só para saber como era.
Era outubro de 1980. Marcelino e Anne Marie foram a uma festa na casa dos pais do ator, na Vila Olga, em São Bernardo. Os dois beberam bastante e, novamente, a francesa retornara ao assunto financeiro. Dizia que, pela experiência do marido, ele deveria estar ganhando mais e, conseqüentemente, oferecendo um padrão de vida melhor a ela. O ator tentou acalmá-la, dizendo que as coisas não eram tão fáceis.
Os dois estavam sós no quarto e a briga esquentou. Ela, novamente, confessou mais casos extra-conjugais. Que ele soubesse, aqui, no Brasil, já andava transando com os amigos dele. E o pior, dizia ela, é que, mesmo depois de ouvir todas aquelas verdades, ele não tinha coragem de se suicidar.
Sim, a arma estava na cintura. E ele a usaria. Apontou o revólver para Anne Marie e descarregou o tambor. Sim, ele tinha coragem. Com ela ali, morrendo na frente dele, apontou a arma para a cabeça e atirou. Mas, por falta de balas, ali estava ele, vivo, com um corpo na sua frente, uma arma na sua cabeça.
***
O ator fugiu da cena do crime. Dias depois, se entregou.
* História real, publicada em minha finada coluna Arquivo do Crime, no jornal Diário do Grande ABC, há muito, muito tempo atrás. Postarei outras aqui neste blog
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Incompletude
Prática e muitas vezes justa, a segunda me cerca de um jeito que me deixa sem saídas. Cheia de si, despeja na minha cara: "Você tem fantasias com ela, mas só sobrevive no meu colo". Com medo de ser rejeitado, caio nos braços da pragmática realidade.
Sempre quis ser escritor, desde que aprendi a ler, antes de muita gente da minha idade. Edito e reedito um livro desde 2002. Ficção que continua impressionantemente impublicável e que, graças aos devidos cortes, nunca passa das 50 páginas. Largo dela por anos, não coincidentemente nos períodos em que mais trabalho como repórter. Chego a sentir estar no caminho certo até tropeçar no cansaço e na frustação. Me pego sonhando com as delícias da cama da outra.
Realidade e ficção são, na minha vida, duas irmãs lutando por atenção. Suas motivações são diferentes como uma é o avesso da outra. A realidade me quer porque tem certeza que pertenço a ela. A ficção, por sua vez, pretende apenas me tirar os braços da outra, sem dar a mínima garantia.
Às vezes, tenho vontade de matar as duas. Só não o faço por puro egoísmo.