quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Perspectiva do pretérito

eu sou o que eu vi
história-ficção-pessoal
corpo presente vivendo passado
só por medo de olhar pra trás
lá nos confins do futuro longínquo






e não ver nada

sábado, 29 de janeiro de 2011

João e Tarantino

João viveu anos como monge budista, quando conheceu o próprio Dalai Lama, e passou outra boa parte da sua vida com os franciscanos e hare krishnas, com quem teve longas lições sobre humildade e desprendimento, além de ganhar exóticos cortes de cabelo. Aprendeu a pilotar helicópteros e aviões na tentativa de ver as coisas em perspectiva, e chegou a passar dias e dias sem comer, supervisionado por um faquir experiente. Também tentou o tricô, a ioga, o iô-iô, o tai-chi e os comprimidos de ecstasy. Nada deu jeito, ele realmente não conseguia esquecer o que lhe fizeram. Há seis meses montou acampamento em frente à casa do diretor de cinema Quentin Tarantino, com quem pretende trocar figurinhas sobre o assunto predileto de ambos, a vingança.

East Street e Mark Twain

O frio apenas ameno permitiu-me um agradável passeio pelo sul de Londres nessa manhã de sábado. Caminhei despretensiosamente pelo East Street Market, o mercado de rua mais legal de Londres, apinhado de jamaicanos, chineses, árabes e até ingleses. A trilha sonora é uma mistura de reggae das barraquinhas de CDs com os gritos dos vendedores em busca de clientes. Estiquei até a loja do Exército da Salvação, onde são vendidas todo tipo de tranqueiras. Lá, ganhei o dia ao achar uma edição capa dura com dois romances: As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckberry Finn. Claro que comprei pensando no segundo, genial e engraçadíssmo, ainda mais no inglês original do gigante Mark Twain. Tudo por apenas uma libra.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O silêncio

Longe de tudo, num quartinho de um conjunto habitacional de Londres, encontrei o silêncio que precisava para escrever minha ficção. O silêncio, claro, não é permanente, sendo interrompido algumas vezes pelos aparelhos de som acoplados no corpo de meus housemates, vítimas de seu gosto duvidoso pelo R&B. Mas agora, nesses momento, por exemplo, o silêncio é tão grande que posso ouvir até as patas das baratinhas andando pela pia da cozinha. Inebriante.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Palavras

— Qual é o valor de palavras que não temos coragem de dizer?
— O que eu queria mesmo saber é o valor das palavras que temos coragem de dizer.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas perdidas nos blocos de notas

Temos de domar nossas memórias, nossa fome e nosso cansaço; temos de adestrar as lágrimas, acostumar nosso paladar aos gostos diferentes e carregar punhados de paciência em todos os bolsos. Afinal, não somos criancinhas num passeio de escola, somos marinheiros. Um homem em terra sempre pode agir como um bebê, se assim julgar conveniente. Uma vez no mar, mesmo os bebês têm de virar homens.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

10 vezes Europa

Seleção de fotos tiradas durante as viagens que fiz nos últimos quatro meses. Só clicar sobre as imagens para vê-las maiores.

Tuileries, Paris

Praga

Sagrada Família, Barcelona

Rio Tâmisa, Londres

Veneza

Amsterdam

Palácio Charlotemburg, Berlim

Rio Danúbio, Budapeste


Rio Tibre e, ao fundo, Vaticano, Roma


Viena

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A bagagem certa

Comprei hoje um travesseiro em forma de ferradura e uma venda para os olhos, para estrear já na sexta feita, quando voo para Roma, primeiro destino de uma viagem de cinco dias por cinco países europeus. Eu mesmo já chamei de fresco quem usa esse tipo de apetrecho, mas acabei chegando à conclusão de que vale a pena tentar amenizar o desconforto quando vai se enfrentar longas viagens de ônibus, as mais desconfortáveis de todas, principalmente quando ultrapassam 12 horas. Na falta de um ombro, o travesseiro quebra o galho na hora de dormir no busão. A venda será mais útil nos hostels, já que em quartos com mais de 10 pessoas sempre tem gente saindo e entrando no meio da madrugada.

Os dois itens, compactos, diga-se de passagem, vão contra a minha crença de dimunuir cada vez mais a bagagem. Na minha primeira longa viagem, fiz por merecer o nome dado a esse tipo de jornada, mochilão. Carregava comigo uma daquelas enormes mochilas de 60 litros, com dezenas de roupas e sabe-se lá mais o que. Dessa vez, vou levar apenas uma mochilinha pequena, dessas do dia-a-dia. Comigo, só a roupa suficiente para uma semana; quando estiver tudo sujo, acho uma lavanderia.

Fundamental é levar as roupas certas. Como vou enfrentar o inverno europeu, comprei calças e camisetas térmicas. O par de calças lembra aqueles mijões que botam nos bebês, feio que dói, mas custou o equivalente a 8 reais e parece ser eficaz. Só espero que meus tênis deem conta do recado na hora de enfrentar a neve. Caso contrário, terei de comprar botas.

Fora isso, levo sempre comigo um ou dois livros, caderno de anotações e câmera fotográfica. Espero ter muito que registrar, saindo de Roma para Florença e seguindo de lá para Veneza, Viena, Budapeste, Bratislava e Praga.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Europa em cinco quadros

Minha viagem pela Europa tem valido por muitas faculdades. Uma delas, de arte. Abaixo, sem ordem de preferência, segue uma pequena seleção de alguns dos quadros que mais me impressionaram nos museus pelos quais passei até agora.
Ophelia, de Sir John Everett Millais - Tate Britain, Londres

Crucificação de Cristo, de Giotto - Louvre, Paris

As Meninas, de Picasso - Museu Picasso, Barcelona

Um dos Três Estudos Para a Crucificação, de Francis Bacon - Tate Britain, Londres

Campo de Trigo Com Ciprestes, Van Gogh - National Gallery, Londres

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cara de brasileiro

Dizem que brasileiro não tem cara. Ô, povo multicultural! Tem brasileiro japonês, negro, índio e, às vezes, até branco. Tudo bem, pois ouçam essa: brasileiro tem cara, sim! E descobri isso aqui em Londres, essa espécie Babel horizontal e com metrô.

Falando em metrô, geralmente é lá que faço minhas constatações sociológicas. Dia desses, estava lá eu pensando em nada, e sentam duas japonesas na minha frente. Algo estranho com elas, parecia que as conhecia de algum lugar. Sei não, pensei. Até que as duas abriram a boca e começaram a fofocar em brasileiro ("... porque fulana... fulana é uma vaca!").

A partir daquele dia, toda a vez que tinha essa sensação, essa coisa de achar que conheço aquela pessoa de algum lugar, só espero a hora de ouvir a pessoa começar a falar português. Tenho comigo uma explicação científica que me veio sem nenhuma análise científica, de que conseguimos reconhecer uma carga genética parecida com a nossa. Se você não acredita, pergunta pra qualquer brazuca que já tenha vivido no exterior.

Claro que há outros métodos de reconhecer brasileiros, como gente furando fila e com a camisa do Corinthians. Mas esses métodos não são 100% seguros, levando em consideração que se encontra gente com mau gosto futebolítico e metido a malandro em qualquer lugar do mundo. Na dúvida, porém, se vejo alguém furando a fila já desato a falar as maiores barbaridades em português. Uma vez, na fila pra entrar na Catedral de Notre Dame, um sujeito com o filho entrou na minha frente. "Olha que vagabundo, com o filho do lado e furando fila", comecei a dizer. O sujeito olhou para minha cara e não disse nada, seguiu em frente. Mas não precisava dizer nada mesmo, porque eu vi, tinha cara de brasileiro.

Estranho que resolvi escrever isso tudo por causa de um cachorro, hoje de manhã. Se tem outra coisa que a gente reconhece na hora, além de brasileiro, é cachorro com más intenções. Estava eu em um parque, fazendo fotos da neve, novidade para qualquer ser tropical pela primeira vez na Europa, quando o pittbull passou me olhando. Eu fingi não ligar, olhei pra outro lado, mas comecei a me preparar pra correr. O cachorro, fingido, foi para o outro lado, deu umas voltas, esperou o dono olhar para o lado e disparou na minha direção. Eu, que não sou idiota, disparei na direção contrária. O dono do cachorro, vendo a cena, chamou a atenção do animal, que abortou a missão. Olhei na direção do sujeito, para ver se ele fazia algum sinal, algum pedido de desculpas. Nada. Ele estava entretido demais gritando com o cachorro. "Que merda é essa! Que merda é essa!", vociferava o sujeito para o animal, em português.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crônicas londrinas - o garçom e o popstar

Minha carreira de garçom de terceira classe por pouco não se agiganta nesta semana. A noite parecia nada promissora. Dos cinco enviados pela agência para a qual trabalho a um hotel de luxo em Mayfair, três foram escolhidos para trabalhar em um jantar para cerca de 20 paquistaneses bilionários. Entre os que sobraram, obviamente, estava eu. Não que minha tarefa da noite fosse totalmente prescindível, afinal, alguém tem que polir as taças de vinho para que os convidados não sejam escandalizados por uma eventual marca de dedo em seus copos.

Após mais de duas horas com guardanapo e taças na mão, aparece o gerente do hotel correndo. "Follow me, guys, quick", disse. Eu e a moça que estava comigo, da Etiópia, saímos em disparada atrás dele, que continuou passando as instruções. "Surgiu uma função para duas pessoas essa noite. Um dos convidados é bastante famoso. Vocês conhecem George Michael?"

A minha colega de trabalho começou a dar gritinhos nervosos, enquanto eu pensava que estava prestes a entrar para o seleto mundo dos criados de superstars. "Vocês só tem que abrir a porta, oferecer para pegar o casaco dele e servir canapés." E eu me pus a pensar se conseguiria eu fazer algo errado na concretização de tal tarefa e, fato inédito, não encontrei nada.

Claro que comemorei antes da hora. Os amigos de George Michael chegaram e, na hora de abrir a porta, empurrei para o lado errado. Meu gerente, que estava por perto, me corrigiu. "Sempre puxe a porta, não empurre", disse ele, uma das poucas criaturas educadas que conheci no mundo dos feitores de hotéis. Então, depois disso, me postei lá, feito um soldado, esperando o popstar mais conhecido por fazer sexo em lugares públicos e dirigir alcoolizado que por suas músicas.

Estava satisfeito porque, afinal, teria mais uma história para escrever aqui. Talvez, um texto estilo Piauí: "Vestindo um aveludado casaco Calvin Klein, na altura dos joelhos, George Michael chegou ofegante. Numa mistura de sorriso e careta, difíceis de distinguir por conta da barba desenhada, que lhe dá um ar caricatural, o cantor inglês sussurou um obrigado antes de se desfazer do casaco sobre o criado parado ao seu lado". Ou, quem sabe?, algo mais direto, feito Folha de S. Paulo. "O cantor britânico George Michael, 54, chegou ao hotel X, em Mayfair, Zona Central de Londres, por volta das 8h da noite de ontem. O objetivo da visita era se encontrar com produtores do seu novo disco, Nasci de novo depois da cadeia."

Duas horas depois, parado de um lado da porta, enquanto minha colega estava do outro, percebi que não seria aquela noite que daria tal upgrade na minha carreira na indústria dos serviços de hotelaria. Olhávamos entediados um para a cara do outro. O gerente passou apressado e disse: "Ele não vem. Podem voltar a polir os copos lá em cima". Àquela altura, subimos aliviados, cansados da longa espera, especulando sobre onde poderia estar o cantor. Preso? Em algum acidente de trânsito? Fazendo sexo em um banheiro público? Seja o que for, os jornais não noticiaram nada no dia seguinte.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A crise na Europa e o jeitinho lusitano

Dá para medir o tamanho da crise econômica na Europa zanzando por Londres, mais especificamente, pelos porões da cidade. Explico, é que aqui, nos hotéis, restaurantes, lojas, quase sempre, há uma entrada e aposentos para empregados que ficam abaixo do nível da rua. Estou me tornando um verdadeiro especialista em circular por esses labirínticos espaços.

Mas onde entra a crise? No fato de que não só brasileiros, indianos, chineses, africanos, tailandeses e outros imigrantes de países em desenvolvimento estão entre meus colegas de trabalho como garçom, para ganhar seis libras por hora. Também há, cada vez mais, europeus. Gente que fez faculdade, mas está desempregada em seus países. Ontem mesmo, trabalhei com um italiano da cidade de Peruja. Na semana passada, com duas espanholas das Ilhas Canárias. Na outra, uma francesa. Será possível saber que a coisa está afundando de vez quando eu começar a encontrar suíços, alemães ou pessoas de Andorra e de Luxemburgo carregando bandejas.

Tomando uma cerveja em Bricklane, uma espécie de rua Augusta daqui, encontrei João, 43 anos, um sujeito inteligente e bom de papo, que parecia estar feliz por falar a própria língua com alguém. Português, ele já trabalhou em construções e em cozinhas no Reino Unido. Cansou de tudo isso, foi morar numa invasão e espera chegar o benefício do governo. Quer viver às custas da rainha, disse o simpático malandro, enquanto tomávamos umas cervejas pra aquecer uma noite que devia estar pelos seus 3, 4 graus.

Durante o papo, ele botou para correr um mendigo que veio pedir um trago, mostrando sua credencial para vender uma revista beneficente, feita para sustentar os homeless. Perguntei para ele se nunca nenhum inglês demonstrou sinais de xenofobia contra ele. Rapidamente, me vi com um pedaço de ferro sobre o meu pescoço, sem ter como me mover. "Nesses casos, eu digo pra eles: 'Ou você me trata como um ser humano ou...'", disse João, com um sorriso no rosto e colocando de volta o pedaço de ferro em sua mochila. Depois de conhecê-lo, passei a ter certeza de que, assim como os sonhos de padaria e a bacalhoada, o jeitinho brasileiro é um produto importado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Crônicas londrinas - Operação Elephant and Castle

No último episódio dessas crônicas londrinas, eu me vangloriava da bela localização da minha casa, na Zona Leste da Metrópole, na saudosa Bethnal Green. Cansado de trabalhar feito louco, carregando bandejas para cá e para lá na festas dos ricaços, só para pagar o vultoso aluguel, nosso herói fez feito os pássaros no inverno e voou para o Sul, em busca de um aluguel mais barato. Next stop is... Elephant and Castle.

Eu e meu futuro parceiro de quarto, o jornalista, garçom tarimbado e galã de novela mexicana, Talis Maurício, seguimos para verificar a casa que eu havia encontrado em um site daqui, uma espécie de Primeira Mão sem aquela maçã nem aquela argentina dos comerciais. Não querendo ser indiscreto, mas o caminho entre a estação de metrô e a casa assustou meu companheiro de jornada. Não sei o que alarmou tão bravo homem foi o grasnado de algum corvo, há muito deles por aqui, ou paisagem lúgrube, tomada pelo fog londrino. O apartamento ficava dentro de um condomínio de prédios de aspecto meio tenebroso. Nos perdemos lá dentro e, quando pensávamos em desistir, ouvimos uma voz. Era um vulto, sobre uma espécie de passarela, quem gritava.

— Ei, quem vocês estão procurando?
— Estamos procurando uma casa?
— Quem vocês estão procurando?
— Loyd, o dono da casa.

Subimos as escadas para encontrar um sujeito alto, negro e vestindo um roupão e uma boa quantidade de jóias, tragando demoradamente seu cigarro. Apesar de o cara parecer um gangster, nós seguimos em frente. Junto com duas garotas que apareceram na última hora para ver o mesmo apartamento, fomos levamos para um labiríntico muquifo. A porta se abria direto para uma escada e, diferente do que estamos acostumados no Brasil, havia mais mais dois pavimentos para baixo. Quatro quartos, dois banheiros, chão rangindo, senhorio assustador e aluguel barato. As duas garotas zarparam de lá rapidinho.

Ao sair, apesar de todos os CONTRAS, olhamos ao mesmo tempo um para a cara do outro e dissemos: “Vamos morar aí?” O principal motivo da nossa tresloucada decisão foi que todos os outros três caras que morariam com a gente nasceram falando inglês, o que nos ajudaria muito na prática diária da língua. Fomos rápidos e, no dia seguinte, voltamos para pagar o depósito ao landlord (termo que usam aqui para definir o cara que aluga uma casa para você e é responsável pelos problemas que acontecerem nela, no nosso caso, como veríamos, só o cara que recebe o aluguel). Sim, lá estava ele, Loyd, com o meeeesssmo roupão, um cigarro na boca e fazendo cara de mau. Do meio de um montão de dinheiro que guardava no bolso, tirou um recibo, que nos deu pelas 200 libras de depósito. Com a grana no bolso, limitou-se a responder todos os nossos pedidos com um sorriso sacana no rosto e a frase: “It’s not my business”. O bordão se repetia mesmo quando o pedido era simples, como “você pode nos dar uma chave extra?”. Sim, ele era mau, muito mau.

Aluguel aqui é adiantado e, antes de passar a morar no nosso palácio, tínhamos de pagar o nosso. Um dia, mandei uma mensagem para Loyd marcando um horário para pagá-lo. Minutos depois, ele me liga.

— Você me ligou?
— Loyd, aqui é o Artur, que vai morar na sua casa...
— Casa? Não tenho nenhuma casa e não conheço nenhum Artur.
— Como não? Mas eu te paguei o depósito!
— Depósito?
— É...
— Hahahaha! Eu te assustei, né?

Filho da puta. Sim, quando fui pagá-lo, ele estava vestindo um roupão. Não mais o branco encardido das outras vezes, mas um roxo. Me deu um recibo e, só para me encher o saco, como se eu não existisse, botou o nome do Talis, que não estava presente, no papel. Pensei em quebrar a cara dele, mas mudei de ideia rapidamente, só para evitar a fadiga do combate.

Alguns dias depois, estávamos em nossa nova casa, que se revelou mais acolhedora do que pensávamos. Dividimos o apê com dois universitários, acho que um deles sulafricano, ou os dois, não sei, porque eles passam o dia inteiro ouvindo rap e jogando videogame em seus quartos. O outro morador, um inglês de meia idade, que já morou em metade do mundo trabalhando como gerente de hotéis, se revelou uma companhia bastante agradável, cheia de histórias para contar. Ah, claro. Não posso esquecer delas, as baratas. Não serei injusto a ponto de dizer que elas infestam a casa. Elas têm mesmo uma preferência especial por um cantinho, uma área onde se sentem à vontade: o armário onde guardamos nossas comidas. Mas, como diria o mano Darwin, naquele rap famoso, a Origem das Espécies, só sobrevive quem se adapta ao meio.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O caminho da ficção

A vida atravessa o caminho da ficção. A internet atravessa o caminho da ficção. O barulho lá fora atravessa o caminho da ficção. A TV, as notícias, o gerente do banco, as dívidas, a fome, a preguiça, o sono, o sonho, a ambição... O caminho atravessa o caminho da ficção. O labirinto é o caminho da ficção.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Barcelona


As viagens, digo as boas e longas viagens, são sempre carregadas de uma sensação de perda iminente. O olhar não sabe se desfruta ou se se despede daquilo que possivelmente nunca mais voltará a ver. Barcelona, tão brilhante que é, acentua essa característica e me leva do riso às lágrimas em segundos.

Sim, entendo aqueles que colocam faixas nas janelas, protestando contra a multidão de turistas que ronda a cidade todos os dias. Aquilo não me pertence e, se pertencesse, eu faria o mesmo. Ah, mas é impossível não ser íntimo de uma cidade que faz das varandas o varal para suas roupas de baixo e seus gritos de guerra. Andar pelas apertadíssimas vielas do bairro gótico é como ser abraçado por todos esses anos de história e estórias.

Cidade ensolarada quando a Europa começa a congelar, salpicada pela mágica de Gaudí, confeiteiro da arquitetura, que parece usar chantilly e jujubas nas suas construções. A Casa Batlló é o mais comestível de todos os edifícios que já conheci. O arquiteto também era especialista em disfarces... ou sou o único a achar que a Sagrada Família é uma nave espacial disfarçada de igreja?

Essa atmosfera fantástica se espalha pelas ruas. Basta dar uma caminhada nas Ramblas para se surpreender com os artistas que até flutuar flutuam em praça pública; ou passear pelo mercado de Boqueria, onde são vendidas as comidas mais coloridas do mundo. No bairro del Raval, o sonho ainda não acabou na Casa des Pueblos Rebeldes, onde os seguidores dos anarquistas que enfrentaram o ditador Franco ainda continuam a arquitetar planos contra o demônio capitalista.

Difícil é deixar tudo isso depois de alguns poucos dias por lá. Mas não há varinha de condão tão poderosa que mude certas circunstâncias da vida ou que simplesmente faça Barcelona desaparecer. Da Catalúnia e da minha memória.