sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um conto sobre dias muito loucos

Do lado externo de um prédio, piscava a frase FORA TEMER. Alguém havia projetado de um prédio próximo. 
Como muitos que estavam naquele protesto fizeram, eu tirei o celular para tentar fotografar. Por algum problema, a foto não ficava boa. Tentei de novo, de novo, de novo. 
Sinto uma mão sobre o celular e, quando vejo, uma bicicleta. Havia acabado de presenciar aquela cena, naquele mesmo protesto. Um sujeito passando de bike a toda velocidade, alguém gritando ladrão, ladrão, ladrão. 
Não, aquilo nunca aconteceria comigo. Eu podia ficar em paz com o celular que custa metade do meu salário, aquilo não aconteceria comigo. Moro no centro, sou da periferia, os ladrões reconheceriam isso. 
Sou um repórter, tenho que registrar, os ladrões reconheceriam isso. E aquela mão levando o celular, eu correndo atrás da bicicleta, eu jogando um objeto nas costas do ladrão. 
Eram dois ladrões, eu joguei o capacete que levava comigo, um capacete de skatista que o jornal onde eu trabalho dava para impedir que eu morresse como aquele cinegrafista do Rio de Janeiro, o Santiago, para impedir que alguém jogasse um rojão e estourassem minha cabeça.
O capacete bateu em cheio nas costas do ladrão, mas era um capacete de plástico. O ladrão entrou numa descida e desapareceu. Ignorou que eu moro no centro, que eu cresci na periferia, que eu sou repórter, preciso registrar, ignorou meu capacete.
Uma ativista que eu sempre vejo nos protestos veio trazer meu óculos, isso está acontecendo toda hora aqui, ela disse.
Um sujeito de bigode e boné, uma Heinekein na mão, perguntou onde eu trabalhava. Eu disse: no jornal tal, um jornal da tal grande mídia, o que significa que nas ruas é como se eu fosse do Império, o próprio Dart Vader.
Então mereceu, ele disse. E depois: é isso que acontece quando se vai pra rua, mereceu. Um sujeito de bigode e Heinekein, provavelmente criado num apartamento, falando sobre rua comigo, que jogava bola descalço no asfalto.
Eu gostaria de ter dito que faz mais de uma década que estou na rua, que já estive em barracos com traficantes e entrei em prisões, que já vi amigos serem mortos nas ruas, que fui officeboy no centro. Mas o sujeito criado em apartamento via em mim um grande executivo da comunicação.
Eu pensei em dar um soco nele, mas depois lembrei: estou trabalhando, vou perder o emprego. A essa hora o ladrão já está longe, a essa hora já deve estar jogando Pokemón Go com meu celular.
Você não me conhece, não vou discutir com você. Um fotógrafo do meu jornal passou a discutir com o cara, eu fui embora.
Eu estava suado, com cara de idiota, a cara de idiota das pessoas que são roubadas na rua. Quando cheguei na redação, ninguém ligou para o meu celular roubado. A presidente da república havia acabado de cair, foda-se o meu celular, foda-se a zona leste, foda-se que você foi officeboy e jogou bola descalço.
O GPS do celular havia sido desligado, mas eu mandei uma mensagem para o ladrão: ladrão de merda, vou te buscar aí na favela do Moinho. Favela do Moinho fica perto do meu trabalho e, mesmo na minha cabeça que se diz livre dos preconceitos, é ali que os ladrões moram.
Eu, que já fiz várias matérias denunciando violência policial, fantasio com a Força Tática entrando lá e matando os dois. Fantasio comigo dizendo algo a eles, presos, espancados na delegacia. Agora, vão comer marmita estragada na prisão, seus bostas. Sinto que posso dizer algo melhor, mas não consigo pensar em nada.
Nos dias seguintes, entro várias vezes no aplicativo que localiza o celular, mas o GPS continua desligado. Os ladrões, ao desligarem o GPS, ignoraram toda a minha história. Os ladrões e o bigodudo. Os ladrões e a presidente que caiu e levou junto meu celular.
Fantasio a mim mesmo descobrindo quem é o bigodudo. Eu sou repórter, descubro qualquer um, de verdade, levanto seu patrimônio, sua vida, seu prontuário médico, tudo. Vou deixar uma carta enigmática na casa dele, vou fazer ligações ameaçando o bigodudo. Não, vou dizer a ele que bosta de ser humano ele é por comemorar o fato de alguém ter sido roubado.
Escrevo um post no Facebook sobre isso, muitas pessoas compartilham. Eu me pergunto se o bigode leu aquilo, se se sentiu mal. Eu me pergunto o motivo de ninguém me dizer: por que você está fazendo tanto drama por causa de um celular? É mesmo por causa de um celular? Não é só por 20 centavos.
Só falo sobre isso, ninguém mais quer almoçar comigo no trabalho. As pessoas devem estar lendo este conto e dizendo para si mesmas: esse cara enlouqueceu, daqui a pouco vai fazer um crowdfunding pedindo um novo Iphone 6, como a Bel Pesce da hamburgueria.
Uma semana depois, quando já estava esquecendo do assunto, encontro o bigode em um novo protesto. Ao contrário do que havia planejado, não digo nada a ele. Ele olha na minha cara, eu olho na dele, sinto que ele está sem graça. Está ao lado de um sujeito que trabalhou no mesmo jornal que eu, alguém que, na visão dele, merece ser roubado, morto, incinerado.
Não, não quero exigir coerência de um desses sujeitos que faz fotos por lazer, que não tem de pagar a mensalidade da casa, que não nunca pisou numa prisão ou numa favela, que não é da zona leste. Quero que ele saiba a verdade, só isso. Qual é a verdade? 
Durante algum tempo, eu o observo. Ele picha um ponto de ônibus, dá risada, fala com os amigos. De vez em quando, olha pra mim.
Eu o filmo pichando o ponto de ônibus e penso em mandar o vídeo para a polícia. Descubro quem o sujeito é no Facebook, mando para a polícia, eu planejo. Ele vai se arrepender do que disse, eu sou da zona leste, eu registro porque sou repórter, vão comer marmita estragada na prisão, seus vermes.
Imagino a mim mesmo batendo na cara dele com uma máscara de gás que levo aos protestos. Batendo nele e no sujeito que pegou meu boné e mandou todos os moleques da escola cuspirem dentro quando eu tinha 14 anos.
Sou escorpiano, não esqueço nunca. Não acredito em horóscopo, apesar de ler todos os dias o horóscopo personalizado, feito com base na minha lua natal, sol e ascendente. Mas também leio o horóscopo do jornal, nada personalizado, só porque fica do lado das tirinhas. Às sextas, a pessoa que escreve o horóscopo sempre me manda transar.
O bigode vai embora, devagar, não corro atrás dele nem atiro meu capacete. Os ladrões já devem ter roubado uns 50 celulares na semana que passou, os protestos crescem, o novo presidente fala em 12 horas de trabalho por dia, reforma da previdência.
Imagino o presidente de bigode, pedalando uma bike a toda, cuspindo no meu boné, eu jogando uma garrafa de Heinekein nele pelas costas, a zona leste me aplaude, os officeboys, muitos likes no Facebook, meu celular reaparece misteriosamente na porta de casa, horóscopo dizendo que o sol entrou no meu signo, prenunciando uma era dourada na minha vida, uma era de pacificação e sexo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Poema de carnaval

Segunda-feira de carnaval Sou um navio fantasma, à deriva Que se choca com embarcações coloridas e barulhentas A marchinha distante e melancólica se perde na névoa intransponível Lalalá, larilalalá Um borrão O barulho da água movendo-se, profunda e escurecida

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A baleia



Quando a baleia encalhou na praia, não havia quase ninguém. Foi chegando como um estrondo, esguichando água para o alto e rangendo como um navio. Era enorme, sua sombra projetou-se sobre a areia e esticou-se pela praia.

Quem se aproximou primeiro do animal foi um moleque. Era um moleque preto de sol, magrelo, que corria sozinho de um lado para o outro e deu de cara com o bicho. Ele se aproximou sem muita coragem, o gigante debatia-se, a cauda fazendo chover sobre sua cabeça. O menino tentava se aproximar e tocá-la, sem nunca cumprir seu intento.

Depois chegou o casal de turistas. Era um sujeito grisalho, de óculos, pinta de intelectual, muito magro, vestindo uma bermuda e uma camisa florida. Parecia um gringo, mas era brasileiro, falava em português com a mulher que o acompanhava. Ela era pelo menos dez anos mais jovem, magra, o cabelo muito liso preso num rabo de cavalo.

O casal vinha caminhando pela praia quando deu de cara com o animal. O menino não estava mais lá, havia saído correndo com pressa minutos antes. Ambos pareciam maravilhados com aquele vulto negro de pele viscosa. O homem pegou o telefono celular e ligou para alguém.

Nesse meio tempo o moleque voltou com dois adultos, ambos munidos de facões. Antes que os dois se aproximassem, o homem grisalho se postou na frente deles, tentava impedir que se aproximassem. Houve uma discussão acalorada.

O moleque observava a discussão de longe, assim como a namorada do homem grisalho. Ambos pareciam amedrontados e intimidados. A baleia gritava, como se fosse um humano com a barriga aberta de uma ponta a outra.

Havia também o pescador calado. Ele observava a discussão e, por vezes, andava de um lado para o outro. Parecia estar com pressa, precisava voltar logo ou tinha vontade de ir ao banheiro. Batia o pé direito no chão.

Os dois homens pareciam perto de chegar a um acordo quando o segundo pescador se aproximou dos dois e enterrou o facão na barriga do homem grisalho. A mulher gritou, mas a voz dela foi encoberta por um gemido agudo dado pela baleia, fazendo a cena parecer a um filme mudo.

O menino observava tudo em silêncio, enquanto o segundo pescador se afastava, ora com pressa ora calmamente. Não olhou para trás.

O primeiro pescador pegou o menino pelo braço e se afastou correndo. A maré estava subindo e as ondas agora encobriam o gemido da baleia, cada vez mais baixo, e os gritos da mulher, cada vez mais altos.

A mulher arrastou o homem, a duras pelas, pela areia. Ela caía, levantava e continuava a arrastar o sujeito. O sangue dele deixava um rastro avermelhado, que aos poucos ia desaparecendo. Ela demorou a desaparecer da praia.

Não havia mais ninguém quando eu me aproximei. O mar havia se acalmado, as águas estavam reluzentes e mais azuis do que nunca. O vento arranhava meu rosto.

Cheguei bem perto da baleia, ela gemia baixinho. Tinha a pele muito brilhante, de um cinza azulado. Era a coisa mais linda que eu havia visto na vida. Então eu coloquei a mão na cintura, peguei minha pistola 380 e mirei bem naquela cabeçona. Olhei por alguns segundos para aqueles olhos tão tristes e pequeninos e apertei o gatilho. Só parei quando as balas acabaram. Foram quinze ou dezesseis tiros.

Não quis mais olhar para o que havia restado da baleia, ela ainda gemia, um som quase imperceptível, mas eu não tinha mais balas.

Virei as costas e ouvi o mar rosnar atrás de mim.

sábado, 4 de janeiro de 2014

A cópia




Ana só queria ter um interruptor no próprio corpo. Assim, poderia desligar-se assim que chegasse do trabalho e descansar até o dia seguinte. Como esse dispositivo ainda não havia sido inventado, depois do expediente de 16 horas na redação ainda era obrigada a atender telefonemas sobre as reportagens do dia e da manhã seguinte.

Depois de uma dessas ligações, para avisar que teria de entrar duas horas mais cedo no dia seguinte, tentou se esconder do mundo dentro de uma folha de jornal. Após alguns segundos submersa, ela retirou o jornal da cabeça e, por acaso, teve a atenção pescada por um anúncio dos classificados. A propaganda dizia: "Acha que o dia deveria ter 48 horas? Adquira seu próprio clone".

A princípio, pensou que aquilo daria uma boa matéria. De noite, sonhou consigo mesma dividida em vinte partes, todas ela indecisas sobre qual roupa usaria ou se aquela cor de batom era a correta. Foi interrompida pelo interfone, que estava quebrado e mais parecia um peido a ecoar pelo apartamento de 60 metros quadrados na Santa Cecília.

Era o motorista do jornal. Ela desceu sem tomar café da manhã e deu um bom dia descabelado ao motorista do Renault prata que a esperava. Assim que o homem deu partida no veículo, encostou a cabeça no vidro do veículo e dormiu, cabeça trepidando no vidro pelas ruas esburacadas. A missão do dia era, com a ajuda de um pé de cabra, vistoriar trezentos bueiros da cidade para a seção Guardião, do diário em que trabalhava, o jornal popular Pra Já.

Conseguiu vistoriar apenas 237 bueiros, dos quais apenas cinco encontravam-se em condições satisfatórias. O anúncio sobre o clone já havia se esvaído em meio à bosta e aos ratos que vira durante todo o dia e naufragaria ali mesmo não fosse uma nova ligação. A chefia informava que a pauta dos bueiros seria cancelada por ordem, e sem explicações, do diretor de redação. No lugar, ela teria que verificar no dia seguinte a situação de quinhentas lixeiras da cidade.

Abriu um jornal do dia que estava no banco traseiro do veículo. Ligou no impulso, sem esperar nada. A atendente era boa de papo e prometeu-lhe que o pagamento seria suaves prestações, durante vinte anos, e ainda ganharia uma máquina de fazer pipoca para desfrutar junto com o clone nos momentos de folga. Estava decidida a dizer não, mas, ao ver que a redação ligava para ela novamente, mudou de ideia. Em no máximo cinco dias úteis, prometeu a atendente, o clone estaria no endereço dela. Era preciso estar em casa para assinar e receber o manual de instruções.

A entrega chegou depois de três dias. De fato, o material era de boa qualidade. Assim como ela, uma jovem de vinte e quatro anos, um metro e sessenta, cabelos curtos e lisos na altura do ombro. Tinha um olhar de surpresa como o dela, com a diferença de que estava totalmente descansado. Como era filha única, Ana teve a sensação de ter ganhado uma irmã. Na primeira noite, as duas foram dormir tarde depois de passar horas pintando as unhas de cores iguais.

Ana precisava acordar cedo. O clone só passaria a trabalhar na outra semana, depois que ela explicasse os detalhes do trabalho. Se bem que no manual constava que o clone possuía exatamente as mesmas habilidades que ela e ainda outras que haviam sido incluídas, como assoviar e fazer contas de divisão com vírgulas.

O clone insistiu em começar antes.

- Não aguento mais ficar enclausurada nessa casa sem fazer nada. Você precisa arrumar algum hobbie e me deixar trabalhar.

De fato, Ana ainda pensava o que faria no tempo livre. Como o manual dizia que o clone tinha limitações caso colocado sob carga de trabalho extenuante, ela havia definido que trabalharia dia sim, dia não. Sua cópia faria o mesmo. Isso evitaria sobrecarregar a outra e ainda dava tempo para que ela começasse a natação, o boxe, a patinação, o piano e as aulas de gastronomia, como sempre havia sonhado.

No primeiro dia de trabalho do clone, Ana deixou o próprio celular com ela e prometeu ficar em casa de prontidão. Qualquer problema, dúvida, qualquer coisa, era só ligar. Não foi preciso.

A cópia ganhou elogios do editor. Escrevia bem e era tão cuidadosa quanto ela com as informações. No primeiro dia de trabalho, passou-se por parente de um doente em um hospital e flagrou uma situação de completo abandono dos pacientes, em macas no chão e sem as mínimas condições de trabalho.

Em casa, as duas combinavam as reportagens que fariam no dia seguinte. A visibilidade de Ana duplicou dentro do jornal e, finalmente, ela recebeu seu primeiro aumento. Nos fins de semana em que não trabalhavam juntas, as duas saíam à noite e se divertiam com as cantadas que as gêmeas recebiam na balada. Uma noite, Ana acabou voltando para casa sozinha depois que a outra resolveu sair com um carinha que as duas haviam achado uma graça.

O telefone dela tocou logo cedo.

- Onde está você, Ana, esqueceu do trabalho?

Ela havia acabado de chegar da academia. Como não conseguiu fazer contato com a cópia, correu para o jornal bolando a desculpa para o atraso. Inventou que estava em uma consulta médica e chegou toda esbaforida. Não via a hora de chegar em casa para dar um esporro daqueles no clone.
- Você me deixou na mão - disse para a outra.
- Estou de saco cheio de ficar sendo escravizada. Para você levar o mérito!
- Nós duas levamos o mérito!
- Não, só você leva, é o seu nome que sai lá. Eu não tenho nem nome.
A outra saiu batendo a porta. Voltou depois de alguns minutos, com a mão estendida.
- Preciso de algum adiantado para o hotel?
- O hotel? E o que eu te dei ontem?
- Querida, o custo de vida de São Paulo é um dos mais caros do mundo. Você não leu a nossa matéria no jornal da semana passada? Matéria, aliás, que eu fiz para você.

Ana deu à outra tudo que tinha na carteira. Nos dias seguintes, não conseguiu fazer contato com ela. Foi ao trabalho todos os dias, como antes, com medo de que a cópia não desse as caras. O instinto dela havia acertado. Assim como ela, o clone devia ser do signo de touro.

- Aquela cabeça dura!

 Até que estava aliviada em se livrar daquela víbora mal agradecida. Pediria seu dinheiro de volta e eles que se virassem com aquele clone mal feito. Se fosse uma cópia idêntica, não seria tão preguiçosa!
Dias depois, encontrou uma correspondência do escritório de advocacia de Altemar Gomes e Associados. Era uma notificação extra-oficial de que devia o equivalente a dois anos de salários à cópia. A correspondência contabilizava dias trabalhados pela outra, dias não trabalhados e ainda horas extras, que o jornal não pagava.

Em um telefonema ao advogado no dia seguinte, desesperada, Ana insistiu em falar com o clone. Só podia estar acontecendo algum mal entendido.

- Nem pensar. Não pago, não pago nada para essa aí - disse ao advogado.
- Essa era nossa última oferta. Assim que dermos entrada no processo judicial, ficará impossível para a senhora voltar atrás. Passe bem.

A audiência de conciliação foi um mês depois. O juiz, um homem aparentemente indignado com a exploração sofrida pela outra, não deu chance de defesa para Ana. Se pudesse, o magistrado teria mandado prendê-la. Ordenou um pagamento 25% maior do que o advogado havia proposto. O valor foi mantido por instâncias superiores, que negaram todos os recursos de Ana.

Para pagar o valor das parcelas, ela acabou tendo de arrumar um bico para revisar textos de uma editora de livro didáticos destinados a escolas públicas. Com bastante frequência, após o expediente, esquecia algumas páginas e deixava passar erros grotescos ali.

Tamanho era o ódio da outra que passou a tomar calmantes para dormir e anfetaminas para acordar. Às vezes, mais parecia um zumbi. Ainda tentou trabalhar como garçonete nos fins de semana de folga para conseguir mais dinheiro, mas foi despedida após derrubar uma bandeja cheia de taças de vinho sobre duas madrinhas de um casamento.

Conseguiu cancelar a compra do clone, que tinha garantia anti-emancipação, mas não se livrou dos salários atrasados. Três anos depois de começar a pagar as parcelas, estava prestes a se ver livre das dívidas, quando recebeu um aviso judicial de que os pagamentos seriam estendidos por tempo indeterminado. É que a cópia acabara de ser aprovada no programa de mestrado de jornalismo literário, em Lisboa, como Ana sempre havia sonhado. Deixou a carta de lado e riu, como não fazia há anos, um riso que fazia a barriga doer e os poodles da vizinha latirem.

domingo, 24 de novembro de 2013

Filtros

Eu abro a janela do meu apartamento no sétimo andar. A chuva ácida toca no meu rosto. É um alívio a água corrosiva que esfria e queima. O céu é preto amarelado, como o fundo de um grande cinzeiro. As luzes das janelas são pálidas, piscam dissimuladas. As cores estão todas erradas. Porque a vida não tem filtros, às vezes é baça, catarata, outras vezes é brilhante demais para enxergar.

sábado, 14 de setembro de 2013

Confiram a crítica da revista Rolling Stone

O Ato de Riscar um Palito de Fósforo

O Ato de Riscar um Palito de Fósforo

Artur RodriguesPatuá
  • Rolling  Stone:
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por Maurício Monteiro Filho
12 de Setembro de 2013
Repórter policial estreia como contista com bom resultado

Em texto recente em seu blog, o jornalista Artur Rodrigues diz que “carrega um baderneiro interior, um pequeno anarquista”. Essa inquietação fica evidente em cada página da estreia do repórter como contista. Mas o grande trunfo do livro é a autocrítica. Ele sabe que seu pequeno anarquista tem um forte antagonista, também interior ou, como ele diz, “o sujeito no espelho, buscando diversão, alívio, conforto, felicidade, admiração, seja lá o que for”. É isso que humaniza a visão de Rodrigues sobre os objetos da ficção que escreve – toda ancorada na experiência que carrega como repórter policial. Oscilando entre o realismo quase naturalista e um surrealismo quase verossímil, Rodrigues é como seus personagens: alguém, como qualquer alguém, que age sob o signo do conflito. Não há julgamentos morais: apenas observação. Em “Motoqueiro”, o mais potente dos 18 contos, esse conflito atinge o auge: dois amigos, um traficante e um policial, perseguem uma dupla de motoqueiros matadores de inocentes na periferia. Quando os encontram, vem o choque – trata-se de fantasmas. O policial diz: “Essa porra dessa cidade tá matando a gente”. Ou serão nossos próprios demônios o que nos mata? 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Divórcio e a reconstrução da realidade


Comecei a ler o romance Divórcio, de Ricardo Lísias, na tarde de domingo. Com alguns intervalos para trabalhar e dormir, só fiz isso até a noite de segunda-feira, quando terminei.

A obsessão do narrador pelo diário da ex-mulher, que encontra por acaso em uma gaveta, contagia o leitor logo nas primeiras páginas. O voyerismo que envolve quem acompanha os registros da ex-mulher e a reação do ex-marido é gradualmente substituído pelo fascínio criado pelo domínio narrativo do autor.

Por meio de constantes repetições dos trechos, típicas de alguém que está remoendo mentalmente um evento traumático, o personagem vai destrinchando a figura superficial da mulher jornalista e um lado obscuro do jornalismo de entretenimento. Tal qual Chico Buarque, em Construção, reordena as frases e recria significados.

"Confesso que, logo que li o diário, tive o enorme impulso de mostrar para todo mundo quem de fato é minha ex-mulher. Vejam que moça mais legal. No entanto, logo depois eu me vi morto. Toda minha energia então ficou voltada para me resgatar do que me parecia ser a antessala de um necrotério. A conclusão é obrigatória: a literatura é agora parte vital não apenas da minha vida simbólica, mas até do meu corpo", escreve a certa altura do romance.

Dessa forma, uma história doméstica acaba se tornando uma experiência metalinguística em que o autor Ricardo Lísias reflete sobre o narrador e o personagem Ricardo Lísias. E é desse excesso de realidade, de eus, que emerge uma poderosa ficção, que, ouso dizer, recria o próprio autor.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A repercussão de "O ato de riscar um palito de fósforo"


Confiram abaixo matérias sobre meu livro de contos, "O ato de riscar um palito de fósforo", lançado pela Editora Patuá. 



JORNAL DO COMMERCIO

Artur Rodrigues fala da sua periferia fantástica em novo livro

O autor paulista criou 18 contos a partir da observação cotidiana de jornalista e da invenção de ficcionista
Publicado em 29/06/2013, às 05h18

Diogo Guedes
Na epígrafe do livro, uma frase de Murilo Rubião, o escritor e jornalista paulista Artur Rodrigues dá uma pista do objetivo de seu livro, O ato de riscar um palito de fósforo: “Encher a noite com fogos de artifício”. O autor conversou por e-mail com o JC para falar sobre a obra, que tem 18 contos inspirados na sua vivência como repórter de cidades, mas com um olhar que preza pelo fantástico.

JORNAL DO COMMERCIO – O ato de riscar um palito de fósforo nasceu da sua vivência como jornalista. O que retirou dessa experiência cotidiana para os contos?
ARTUR RODRIGUES – A experiência na rua, principalmente como repórter de polícia, ajuda muito no processo de criação. Quando saio para fazer uma reportagem, volto para redação e escrevo os fatos, buscando clareza e o máximo de objetividade possível. A ficção é o que eu não escrevo no jornal. Pode ser um personagem ou o estado de espírito causado por algo que realmente aconteceu. Fica ali, envelhecendo, apurando, virando uma coisa totalmente diferente. Até que a ficção nasce.

JC – Sempre quis escrever também ficção? Quais suas referências literárias?
ARTUR RODRIGUES – Sempre quis escrever ficção, sempre foi o objetivo principal. Quanto às referências, a principal continua sendo Kafka. Nunca nada conseguiu me proporcionar a experiência de estranhamento que ainda me acontece quando leio algo dele. Acho que todos que buscam romper/subverter/desfigurar de certa maneira com o realismo, como Borges, Murilo Rubião, Garcia Marquez, Buñuel, me ajudam a transgredir o excesso de experiências reais que vivo como repórter de Cidades.

JC – Apesar de tratar da realidade de figuras urbanas, O ato de riscar um palito de fósforo não pode ser simplificado como uma prosa social. Como foi equilibrar o realismo dos centros urbanos e a dimensão humana das histórias?
ARTUR RODRIGUES – De fato, em nenhum momento busquei fazer prosa social. Acho que o livro é uma tentativa de desfigurar isso. Ariano Suassuna diz que não é regionalista, que o sertão dele é mítico. Acho que da mesma maneira a minha periferia não é uma periferia realista, é uma periferia fantástica. Os personagens urbanos inadaptados, tentando escapar de algo, da realidade, mesmo nas histórias em que não há nada metafísico acontecendo.

JC - O jornalismo pode ensinar também a escrever melhor? 
ARTUR RODRIGUES - Até certo ponto, o jornalismo pode ensinar a escrever melhor. Ortografia, gramática, pontuação. Mas também é preciso desaprender um pouco para escrever. É preciso desconstruir, ignorar certas regras, fugir do didatismo. No jornalismo, não trabalhamos com o que não escrevemos, com as entrelinhas, entregamos tudo mastigado, na maioria das vezes. O que fica para o leitor intuir, duvidar, a incerteza pode ser o mais importante na prosa de ficção. 

JC - De onde surgiu o amplo mosaico de personagens da obra? 
ARTUR RODRIGUES - Acho que a variedade de personagens é resultado da convivência pessoal e profissional que tenho com muita gente diferente, o que me proporciona várias visões de mundo. Conheci muita gente viajando, morei em três cidades (além de São Paulo, Recife e Londres). Fui criado num bairro de periferia de São Paulo, e até hoje falo um pouco a linguagem dos manos; cresci ouvindo Mano Brown. Na rua,apesar de não ter unia convivência próxima, conheci ladrões, traficantes, viciados. Como repórter, lidei com políticos, empresários, artistas, policiais, prostitutas, religiosos.Acho que o mosaico reflete um pou-co essa variedade. 

JC - No livro, você usa de diversas formas narrativas para cada conto. Queria que você filasse dessa multiplicidade de abordagens. 
ARTUR RODRIGUES - Acho que isso é unia tentativa de não repetir as fórmulas, embora eu tenha consciência de que não estou rompendo com elas. Como é um livro de contos, tentei buscar demar-car a diferença entre eles, para que não se tornasse algo monótono e previsível. Para que o leitor tivesse unia sensação de estranhamento, de ruptura, surpresa. 

JC - Apesar de tratar da realidade de figuras urbanas, O ato de riscar uni pali-to de fósforo não pode ser simplificado como uma prosa social. Como foi equilibrar o realismo dos centros urbanos e a dimensão humana das histórias? 
ARTUR RODRIGUES - De fato, em nenhum momento busquei fazer prosa social. Acho que o livro é uma tentativa de desfigurar isso. Ariano Suassuna diz que não é regionalista, que o sertão dele é mítico. Acho que da mesma maneira a minha periferia não é unia periferia realista, é uma periferia fantástica. Os personagens urbanos inadaptados, tentando escapar de algo, da realidade, mesmo nas histórias em que não há nada meta-físico acontecendo. 

Narrativas curtas de cortes variados 


Num domingo. um homem dá um tiro na sua própria cabeça, acorda horas depois, limpa a sujeira e pensa no trabalho da segunda-feira. Outro precisa matar velhos para garantir que pessoas continuem a nascer, parte de "unia política pública" de um futuro estranho. Um guarda real inglês obrigado a ficar parado aguarda  próximo grupo de turistas, parte da tortura da imobilidade do seu ofício, se dispersar. 

Essas são três histórias entre as 18 presentes no livro O ato de riscar um palito de fósforo, do escritor paulista - que já viveu no Recife - Artur Rodrigues, hoje jornalista do Estado de S. Paulo. Com contos concisos, a obra traz a sensibilidade da realidade para momentos fundamentais - fantásticos ou ordinários - que são valorizados pela natureza breves das narrativas. 

A apresentação da obra é do escritor Ricardo Lísias, um dos melhores nomes da atual geração. No texto, ele ressalta: "Embora se aproxime constantemente do universo da classe baixa, os contos não se prendem ao clichê do mundo-cão. Os mais sutis observam as personagens emparedadas pela solidão. Por outro lado, nos textos de escancarada violência, o autor separa certo respeito pelas personagens, caminhando na fronteira entre o exotismo e o abandono, sem nunca se permitir qualquer ridicularização". Algo a se "notar é a versatilidade das narrativas, construídas em fluxo mental, em diálogo e em noticias, dentre muitos formatos. O trato direto e preciso das histórias ainda ser-ve para deixar espaço para a força das histórias criadas por Artur. 




ESTADÃO

Com uma ficção fortemente ligada aos temas da cidade,repórter do ‘Estadão’ lança livro amanhã


Edison Veiga

É o dilema daquela propaganda de bolacha. Artur Rodrigues arranca boa literatura dos espaços e fatos urbanos – Praça Roosevelt, metrô, PM amigo de traficante – porque é um baita jornalista, desses que sacam o mundo com sagacidade, espontaneidade e agilidade? Ou ele faz jornalismo de primeira linha justamente pela sua habilidade em enxergar e relacionar personagens, coisas e enredos, de modo que o real encha as páginas do jornal e ainda sobrem muitas ficções para contos como os que estão neste livro?
Não importa. Vale é devorar cada uma das histórias de sua lavra, escritas com ritmo e cores, cheias de tipos estranhos que poderiam muito bem existir de verdade. Ou estar em um filme do Tarantino.
Que este O Ato de Riscar Um Palito de Fósforo marque o reconhecimento de um escritor que nasce, sem precisar matar o jornalista. Leia sem moderação.




DIÁRIO DO GRANDE ABC

Artur Rodrigues lança novo livro
Thiago Mariano

O ato de riscar um palito de fósforo. A ação, de uma ponta à outra, é a consumação de algo que vai da vida à morte. Cabe tudo nesse ínterim, o despertar, o lampejo, o calor da vida correndo e o fim. O gesto é uma imagem potente, que persegue ‘O Ato de Riscar Um Palito de Fósforo’ – o livro – do início ao fim. A obra, autoria do jornalista Artur Rodrigues, ex-Diário, é lançada hoje em São Paulo e chega ao mercado pela Editora Patuá, por R$ 30.

São 18 breves contos que habitam 130 páginas. Todos apresentam um flerte descarado com a morte, mas é com a vida, na banalidade do cotidiano ou na surpresa de um acontecimento fantástico, que orbita a densidade narrativa. Tudo está por um fio. Ou à espera do irrevogável – e imprevisível – apagar da chama.

Rodrigues é principalmente repórter policial. Sua lida, ao longo dos anos, poderia passar de brutal para banal, não fosse o rapaz  um atento observador, um apanhador de vida no campo da morte. “O importante, para mim, é o que acontece entre o começo e o fim. Sobre a morte a gente já sabe, o como é que vai ser a vida é que é o importante. E tem a relação de intensidade que o tema traz”, conta ele, que inspira a escrita literária há dez anos, mas só agora decidiu desengavetar seu material.

O jornalismo, para ele, é um gatilho de criação. Alguns contos refletem essa relação de maneira mais direta, como, por exemplo, o primeiro texto, que narra um modorrento domingo de plantão de um repórter. Em outro momento, Rodrigues utiliza os jargões policiais que está habituado a ver no dia a dia. Ainda, enxertos de frases tipicamente noticiosas são o recheio de outro dos contos.

“O escritor, na verdade, quer se diferenciar. Escrevendo, ele quer buscar uma coisa que está no que não está escrito. Jornalista tem que ser explícito, contar a verdade diretamente”, revela.

Nas histórias, os personagens às vezes buscam algo que não está nomeado; em outros instantes encaram a cruz já cientes da caldeirinha. “Uns têm uma relação não tão pensada ou consciente com a vida, enquanto outros questionam isso o tempo inteiro. Ninguém contou a eles como seria o jogo, mas meus personagens são pessoas inadaptadas a ele. Acho que todo mundo em algum momento o é”, pensa Rodrigues, cujo plano, parafraseando o escritor argentino Julio Cortázar, é nocautear o leitor.

“A ideia é quebrar um pouco a sensação de continuidade, de conforto, de que está tudo certo. As pessoas não se perguntam mais nada. Toda vez em que li algo que me causou estranheza, mudou algo em mim.”





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Repórter do Estadão leva bastidores do jornalismo para livro de ficção


Anos de cobertura policial e de crimes, histórias e personagens da vida real são base para o livro de ficção que será lançado nesta semana pelo repórter do caderno 'Metrópole', do Estadão, Artur Rodrigues. Intitulado O ato de riscar um palito de fósforo, a obra traz contos inspirados no que acontece diariamente em São Paulo e é reportado pela imprensa.

O autor diz que a vontade de escrever contos serve como escape e objetiva romper as barreiras do jornalismo. "O que vejo nas coberturas serve como inspiração. Os contos refletem o que eu sentia com as situações e não podia colocar nas reportagens".

O jornalista adianta que o leitor pode esperar surpresas em cada texto, além de ponto de vista de quem vai aos lugares mais obscuros da cidade. "Vi coisas e visitei locais que pessoas normais não têm acesso. É uma caixa de surpresa".

O livro tem 18 histórias e personagens como pastores, policiais, bandidos, jornalistas. Sobre a obra, o escritor e autor do prefácio, Ricardo Lísias, afirma que "O ato de riscar um palito de fósforo tem uma unidade: a morte. Às vezes brutal, outras tantas cercada de banalidade, aparecendo através da literatura fantástica ou do realismo, perdida em meio a sentimentos profundos e incontroláveis ou tratada como apenas mais um elemento do cotidiano, a morte aqui é bizarra, bem humorada, caótica e surpreendente".

Rodrigues está no jornalismo desde 2003 e, neste período, acumulou passagens por Diário do Grande ABC, Agora São Paulo, Jornal do Commercio e Estadão. O lançamento do livro está agendado para sábado, 11, no bar Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 471 - Pinheiros), na capital paulista.

http://portal.comunique-se.com.br/index.php/acontece/71745-reporter-do-estadao-leva-bastidores-do-jornalismo-para-livro-de-ficcao 



VÍRGULA

O Ato de Riscar um Palito de Fósforo, livro de Artur Rodrigues, será lançado em São Paulo



Os mais de 10 anos como repórter fizeram de Artur Rodrigues um observador de personagens urbanos que figuram invisíveis no dia a dia de um jornalista com um deadline. 

Como resultado desses momentos analíticos, Rodrigues lançará o livro O Ato de Riscar um Palito de Fósforo, pela editora Patuá. São 18 contos com tipos comuns nas pautas dele: pastores, bandidos, policias, jornalistas.

O título faz menção a uma das histórias presentes na obra. “Dá para dizer que o nome se refere ao ato de riscar um palito de fósforo como metáfora sobre as coisas repentinas e mágicas que acontecem na nossa vida. Para o bem e para o mal. E também tem um quê de reflexão sobre o fato de essas coisas mágicas acabarem um dia, como os palitos de fósforo da caixa”, comenta o escritor.

Aberto a todos, o lançamento acontece no próximo sábado (11), no Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalena) em São Paulo. Lá a publicação estará à venda por módicos R$ 30. E, para comprar o livro pela sem sair de casa, basta acessar o catálogo editora. 

http://m.virgula.uol.com.br/diversao/literatura/o-ato-de-riscar-um-palito-de-fosforo-livro-de-artur-rodrigues-sera-lancado-em-sao-paulo


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Gente de bem


Enquanto o elevador desce numa velocidade que lhe faz embrulhar o estômago, ele sorri para você.
– Estamos fazendo o melhor para todos, o mais fácil era ficarmos parados, afinal...
É um sujeito simpático. Naquela mesma manhã, ao vê-lo na chuva, lhe deu uma carona no guarda-chuva dele.
Agora, ele faz uma piadinha sobre estar ficando velho e mostra no celular a foto dos netos, duas crianças lindas. Ambas loiras, de olhos azuis, que não se parecem com ele.
Quando finalmente você chega ao subsolo, ele espera você sair primeiro e lhe dá uma palmadinha nas costas. O sapato dele faz barulho enquanto vocês caminham lado a lado – o seu, com sola de borracha, permanece mudo, assim como você.
– Estou bem otimista, viu? Acho que agora estamos no caminho certo...
Ele diz alguma coisa sobre pesquisas ou estatísticas ou algo que você não consegue entender direito porque vocês dois agora estão bem em frente ao incinerador. Você ouve alguma coisa e se pergunta se era um grito ou alguma espécie de animal.
Ao perceber que você está tremendo, ele faz menção de tirar o casaco dele e colocar nas suas costas. Olha para os punhos por um segundo e aborta o gesto.
Abre a porta e, gentilmente, começa a empurrar-lhe em direção ao fogo. Você não costuma contrariá-lo, mas acaba enrijecendo o corpo instintivamente. Ele, sem perder a delicadeza, empurra você com mais força.
– Mas a gente se fala... Precisando de qualquer coisa, você ouve, antes do estrondo da porta de ferro batendo nas suas costas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pedido


Só lhe peço a delicadeza
De sorrir enquanto me odeia
Que espirre ou assobie
Em vez de falar o que pensa
Não quero nada de mais
Apenas a ignorância plena
Pois sei bem que as cicatrizes
Vivem mais que as verdades
E rezam ao pé da tumba dos sinceros

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O jantar



Para quem nunca havia comprado ricota na vida, pagar nove reais em uma parecia um absurdo. João pegou uma, outra e outra, apertando-as e olhando o preço. Todas tinham meio quilo. Surpreendeu-se com uma mulher adivinhando-lhe o pensamento. Não podia ter um pedaço  menor? Em casa, só eu como, disse ela. E ele concordou sem dizer nada, com o mesmo sorriso constrangido que fazia para todos os estranhos que resolviam falar com ele em locais públicos.
No caso dele, a ricota fazia parte da receita e ele resolveu segui-la à risca. Dentro do possível. Era um penne ao molho de espinafre e ricota, com salmão e manteiga de ervas. No lugar do espinafre, que havia acabado, comprou algo que lhe pareceu rúcula. E resolveu trocar o penne por um macarrão em formato de gravata borboleta.
Como os pedaços de salmão disponíveis no mercado eram grandes demais para duas pessoas, resolveu levar outro peixe. Revirou o congelador e acabou levando um saco com três filés de Saint Peter. Agora, em vez do prato da receita, teria macarrão gravata ao molho de espinafre e ricota, acompanhado por filés de Saint Peter com manteiga de ervas. Também lhe pareceu bom.
Só faltava o vinho. Escolheu um português que, fora da promoção, custaria pelo menos dez reais a mais. Definitivamente, era um bom negócio.  
 Quando passava as coisas no caixa, que era operado por uma moça sorridente e prestativa, que parecia nova no emprego, recebeu uma mensagem no celular. Precisava correr para que estivesse tudo pronto quando ela chegasse em casa.
Distraído pensando em que música colocaria para tocar no jantar, esqueceu de ir empacotando as coisas enquanto a caixa registrava os produtos. Despertou do transe ao ver na tela do caixa que as folhas que comprara eram na verdade agrião. Mais uma modificação na receita. Agora, teria de ser macarrão com agrião e ricota.
Estava chovendo um pouco quando saiu do mercado. Desceu a Rua Veridiana numa passada rápida e parou de repente ao ver, no jardim de um condomínio, pequenas flores roxas que não sabia o nome. Apenas algumas delas, no centro da mesa, dentro de uma garrafa vazia qualquer, eram o que faltava para tudo ficar perfeito. Esperou por alguns momentos até que uma idosa, que se locomovia lentamente com ajuda de uma bengala, virasse as costas. Então, enfiou a mão por entre as barras do portão e alcançou um punhado de flores.
A ntes que arrancasse a planta do canteiro, viu um clarão e sentiu um calor percorrendo seu corpo. Os músculos se comprimiram e já não distinguia bem o que via. Sua mão esquerda apertou-se ainda mais sobre o caule das plantas, enquanto o resto do corpo estremecia naquela coreografia ditada pela descarga elétrica.
O vinho espatifou-se no chão. Uma universitaria que voltava da aula antes da hora quase tropeçou em João. À primeira vista, achou que o líquido que escorria pela calçada até juntar-se ao esgoto no meio fio era sangue.
Gritou por socorro e logo João estava cercado de curiosos. Dois moleques só não reviraram as coisas dele em busca de algo de valor porque algumas mulheres estavam muito próximas, uma delas chorando depois de ver o pequeno buquê de flores esmigalhado na mão dele. Outra ajoelhou-se para começar a rezar, mas deu um pulo quando o celular dele começou a tocar uma música alegre. Ninguém teve coragem de atender. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

2666, o mundo todo num livro incompleto

Histórias que não acabam e se emendam em outras, outras e outras. As portas que se abrem e nos confundem e nos expandem. Terminei, depois de começar e parar uma vez, 2666. As histórias incompletas de Bolaño, como as de Kafka,  abrem janelas para o universo. São de incompletude infinita. A imperfeição de certas obras primas nos faz pensar no que os livros podem fazer por nós - explodem feito granadas na nossa alma, abrindo possibilidades labirínticas. A crueza de uma prosa absurdamente sofisticada, a complexidade dos personagens mais simples, o poder da repetição para criar o novo mostram a maestria paradoxal de Bolaño para construir uma prosa divina, sem respostas, cheia de possibilidades, estrelas mortas, que se expandem feito o mundo todo, para não se sabe onde, para lugar nenhum.