domingo, 6 de dezembro de 2009

Aos 30

É, chegaram os 30 anos. E você não viajou o mundo, não teve filhos, não escreveu seu livro nem aprendeu a tocar instrumento algum. Passou muito tempo na frente da TV, mais do que gostaria. Para piorar, estudou menos do que havia planejado, trabalhou muito e ganhou pouco dinheiro.

Os 30 estão aí. E você percebeu que é menos inteligente do que achava que era. Que é menos talentoso do que lhe diziam por aí. De quebra, descobriu que tinha menos amigos do que pensava, embora saiba hoje que os que restaram seguram qualquer bronca. Foi obrigado a ser humilde, quando isso lhe parecia odioso. Foi obrigado a ser paciente, você, que achava que paciência era conformismo.

Entrando em três décadas, você ficou mais tolerante. Logo você, que não aguentava gente burra, agora dá risada das piadas preconceituosas da classe média que tanto negava. Claro, depois você renega tudo isso, afinal, não ficou tão tolerante assim.

Trintão, você percebeu que envelhecer pode ser tropeçar nas próprias pernas. Pode sentir que a migalha de atenção das festinhas de aniversário não passa da cerimônia em que alguém amarra seu cadarço esquerdo no direito, enquanto todos aplaudem o seu tombo. (No começo, é divertido, admita. Mas sabe que o tombo nunca encontra o mesmo corpo, assim como o corpo nunca encontra o mesmo chão. No princípio é um corpo cheio de elasticidade caindo num belo gramado. Mais tarde, torna-se uma estátua de gesso desabando no mais puro e vigoroso concreto.)

Você, 30, sente o tempo na pele. Ele te paralisa, às vezes. Mas, no fundo, sabe que não perdeu tanto tempo assim. Se aprendeu alguma coisa de útil foi a dar risada do tempo, apesar de, às vezes, o senso de humor não ajudar. Descobriu na prática que a melhor coisa do mundo é jogar o tempo fora ao lado de alguém que você gosta.

Você viu muita coisa nesses 30 anos. Gente nascendo, gente morrendo, gente casando, gente separando, gente crescendo, enquanto você envelhecia. Ruas novas foram abertas, mas aquelas antigas ainda continuam te fazendo sorrir. Aquela mudinha de árvore na sua rua agora tem quatro metros de altura e, por mais pessimista que você possa ser, não pode negar como a sombra que ela faz é refrescante.

A morte, aos 30, parece tão longe. Muito mais distante do que aos 15 ou 20, quando você pulava do alto das cachoeiras e quase se arrebentava nas pedras, dirigia completamente bêbado e se metia em tantas brigas. Muitos não tiveram tanta sorte e ficaram pra trás.

Sim, 30, você ainda é mais novo que a maioria. Pode aprender a tocar o instrumento que queria e viajar pelo mundo. Escrever seu livro e ter seu filho. Agora, você provavelmente fará tudo isso melhor, mais cuidadosamente, com mais firmeza. Isso se não quiser ter essa mesma crise aos 40, 50, 60 ou no leito de morte.

Aos 10.950 dias de vida, exatos 30 anos, se for esperto, já terá começado a fazer essas coisas que tanto queria e outras que nunca pensou que faria. Será um cara mais seguro, sereno, realizado. E dará risada dessa carta ingênua que escreveu para si mesmo um ano antes, aos 29, numa tarde de domingo em que não tinha nada para fazer.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Amor incandescente

Maria Jovelina puxou a mangueira do botijão de gás. Ficou esperando. O cheiro se alastrava pelo pequeno barraco no Jardim Irene, Santo André. Perdeu a noção do tempo. Foi para o quarto improvisado no barraco, formado por tênues divisórias, e ficou observando o marido dormir. Chegara à conclusão de que era melhor acabar com tudo agora. Antes que lhe tomassem tudo depois.
O odor forte havia dominado o ambiente. Pegou a caixa de fósforos. tirou um palito e riscou. O fogo tomou conta. O calor insuportável em todas as partes do corpo não impediu que ela se deitasse na cama e abraçasse com força o corpo de Francisco.
A sensação dos pés pegando fogo acordou o homem forte, que, naquele momento, se sentiu imobilizado. Ouvia alto – e nunca conseguiria esquecer daquilo – o choro. As três vozes se fundiam em uma só dor.
Francisco gritou o mais alto que pôde. Tentou se livrar de Maria, que o agarrava com uma força que não tinha. "Vamos morrer todos juntos", gritava a dona de casa em chamas. Os vizinhos ouviram. Mas demoraram a sair. A explosão do botijão de gás, o barulho de coisas caindo, os gritos. Parecia um tiroteio.
Mas, enfim, o primeiro que botou a cara para fora viu que era incêndio e chamou outros três para tentar o resgate. Todos eles demoraram a conseguir que Maria soltasse o marido. Tempo suficiente para os filhos do casal, Jeferson, 6 meses, Jéssica, 2 anos, e Rodrigo, 6, morressem carbonizados.
O casal foi salvo. Maria correu para não ser linchada e acabou 'escoltada' pela polícia até a cadeia. Detida, a mulher que até então fora boa mãe se justificou. Matou por amor ao marido. "Ele tinha uma amante".
Coluna Arquivo do Crime, publicada em 2006 no Diário do Grande ABC

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Falta

O que me falta é falta do que fazer. Me falta é a falta, fazer o quê? O que falta fazer. O que falta? O quê.

domingo, 15 de novembro de 2009

Olhar da Lua

Petrificados de felicidade, imóveis na rede, ficaram vendo a Lua balançar, esquerda e direita, esquerda e direita, cada vez mais lentamente, até que ela parou bem no meio do céu, e retribuiu o olhar.

sábado, 7 de novembro de 2009

Teatro, adultério e uma arma carregada*

Marcelino engatilhou a arma e colocou na cabeça. Sua vida chegara a um extremo que via só nas peças em que atuava. Tramas marginais, do dramaturgo Plínio Marcos, em que gente era moída pelo mundo e devolvia com o pior que tinha dentro de si. Agora, só lhe restava acabar com tudo, apertar o gatilho. Foi o que fez.
A história que terminou em tragédia começou como história de amor. Numa terra distante, com muitos sonhos e planos. Ele, o ator brasileiro, conhecera ela, a fotógrafa francesa, em Paris. Era 1973. Paralelamente à fotografia, Anne Marie Hellen dava aulas de português e espanhol. Tinha, então, 29 anos. Marcelino era quatro anos mais novo e tentava a sorte no teatro francês. Ia razoavelmente bem, atuava em peças do circuito parisiense e trabalhava também criando trilhas sonoras para os espetáculos.
Brasileiro, artista e negro, Marcelino não era bem o que a família de Anne Marie tinha como um bom partido. Os dois sofriam com a pressão dos parentes da francesa, mas estavam apaixonados e seguraram a barra. Três anos depois, casaram-se.

***

Não duraria muito a felicidade do casal. A fotógrafa parecia ter uma certa predisposição a fazer confidências um tanto perturbadoras ao ator. Ela revelou que costumava fazer sexo com os amigos dele, mesmo depois de casados. Marcelino revidou e confessou que também a traía. Ela foi mais longe: contou que um outro namorado brasileiro, na época em que vivera no Brasil, havia se suicidado porque, assim como Marcelino, não conseguia dar o conforto que ela exigia. As brigas multiplicavam-se.
O relacionamento caminhava para o fim quando decidiram mudar para Nova York, nos Estados Unidos. Era um jeito de se verem longe da pressão da família dela. Sem sucesso. Meses depois da mudança, os pais de Anne Marie desembarcavam na América. Era demais para Marcelino. Voltaria para o Brasil. Ela, para a França.
Não conseguiram ficar muito tempo separados. Logo chegava à casa de Marcelino uma carta de Anne Marie. Ela pedia que o ator voltasse à França, para que pudessem tentar novamente. O pedido foi atendido e, novamente, os familiares da fotógrafa voltariam a atormentar o casal. A solução encontrada pelos dois foi uma nova mudança. Dessa vez, o destino era o Brasil.
Marcelino e Anne Marie viveram por um tempo na casa dos pais do ator. Depois, alugaram um apartamento no Centro de São Paulo. A francesa começava a montar seu estúdio de fotografia. Ele conseguiu um papel na peça Barrela, obra de estréia de Plínio Marcos.


***

A arma que o ator mantinha apontada para a cabeça naquela tarde de domingo era usada na peça. A história era sobre um jovem de classe média que, preso, divide a cela com mais quatro. O rapaz é estuprado por todos e, quando sai da cadeia, resolve se vingar. Mata um por um. O papel de Marcelino era de menor importância, mas seu personagem tinha uma arma, de verdade. As balas ele arrumou com um amigo. Queria dar uns tiros, só para saber como era.

***

Era outubro de 1980. Marcelino e Anne Marie foram a uma festa na casa dos pais do ator, na Vila Olga, em São Bernardo. Os dois beberam bastante e, novamente, a francesa retornara ao assunto financeiro. Dizia que, pela experiência do marido, ele deveria estar ganhando mais e, conseqüentemente, oferecendo um padrão de vida melhor a ela. O ator tentou acalmá-la, dizendo que as coisas não eram tão fáceis.
Os dois estavam sós no quarto e a briga esquentou. Ela, novamente, confessou mais casos extra-conjugais. Que ele soubesse, aqui, no Brasil, já andava transando com os amigos dele. E o pior, dizia ela, é que, mesmo depois de ouvir todas aquelas verdades, ele não tinha coragem de se suicidar.
Sim, a arma estava na cintura. E ele a usaria. Apontou o revólver para Anne Marie e descarregou o tambor. Sim, ele tinha coragem. Com ela ali, morrendo na frente dele, apontou a arma para a cabeça e atirou. Mas, por falta de balas, ali estava ele, vivo, com um corpo na sua frente, uma arma na sua cabeça.


***

O ator fugiu da cena do crime. Dias depois, se entregou.

* História real, publicada em minha finada coluna Arquivo do Crime, no jornal Diário do Grande ABC, há muito, muito tempo atrás. Postarei outras aqui neste blog

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Incompletude

Gosto muito mais da ficção que da realidade. Mais interessante e sedutora, a primeira me deixa louco com sua indiferença, um flerte dissimulado e cruel. Me faz esquecer do mundo.

Prática e muitas vezes justa, a segunda me cerca de um jeito que me deixa sem saídas. Cheia de si, despeja na minha cara: "Você tem fantasias com ela, mas só sobrevive no meu colo". Com medo de ser rejeitado, caio nos braços da pragmática realidade.

Sempre quis ser escritor, desde que aprendi a ler, antes de muita gente da minha idade. Edito e reedito um livro desde 2002. Ficção que continua impressionantemente impublicável e que, graças aos devidos cortes, nunca passa das 50 páginas. Largo dela por anos, não coincidentemente nos períodos em que mais trabalho como repórter. Chego a sentir estar no caminho certo até tropeçar no cansaço e na frustação. Me pego sonhando com as delícias da cama da outra.

Realidade e ficção são, na minha vida, duas irmãs lutando por atenção. Suas motivações são diferentes como uma é o avesso da outra. A realidade me quer porque tem certeza que pertenço a ela. A ficção, por sua vez, pretende apenas me tirar os braços da outra, sem dar a mínima garantia.

Às vezes, tenho vontade de matar as duas. Só não o faço por puro egoísmo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Doce ignorância

Pode acabar o café do pote. Pode acabar o amor do pote. O futebol pode acabar. A cerveja pode azedar. O céu, o mar, a lua. As senhoras gordas podem estampar as revistas de mulheres nuas. Clarear para sempre a noite pode. O silêncio pode trancar os dentes e o estômago ficar cheio de serpentes. Desde que eu não saiba, tudo pode.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Semelhanças

A morte lhe parecia um fim louvável. Menos dolorosa do que as amenidades que assolavam o juízo costumeiramente. O calo que doía no pé, o medo de morrer de câncer, a saudade de um tempo que sequer existiu de verdade, os juros dos agiotas que comiam os reais que não tinha, o pressentimento repetitivo de ter deixado o fogo ligado em casa, os pêlos que nasciam no nariz, a barriga que teimava em crescer, o time que perdeu a garra. Não, não aguentava mais aquilo. Sacou a pistola do bolso. Tirou o pente, conferiu: 16 balas. Colocou de volta. O suficiente para acabar com calos, pêlos no nariz, porém, sem poder de fogo contra os juros ou o câncer ou a saudade. Limpou a arma com a camiseta. Pegou o telefone celular. Mensagem recebida: a grana está na mão. Apontou para a cabeça e atirou sem olhar. Um baque seco. O barulho do corpo caído no chão. Pareceria um boneco, não fosse pelo tremor das mãos. Era como assistir a própria agonia. Aqueles olhos castanhos claros iguaizinhos aos seus, mesmo por debaixo da venda, o espreitavam, o julgavam e condenavam. A boca tentava morder o pedaço de fita adesiva que a lacrava. Conversando com o outro mentalmente, dizia, não foi só o dinheiro. Sabia que ele ouviria, sempre ouvira. É a minha liberdade também. Você faria o mesmo que eu se estivesse no meu lugar, sabemos disso. Eu, por minha vez, também te julgaria, assim como você fez comigo, e o condenaria. Afinal, fomos iguais, desde o ventre apertado que dividimos, desconfortavelmente iguais. Mas, agora, ambos estamos livres, irmão, posso dizer sem ódio nenhum, irmão, livres.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O homem e seu sonho

Deus dá o poder de sonhar o infinito. Junto com ele, uma pá e uma cova já cavada para enterrar o sonho. Se o homem tiver preguiça de carregar o pesado sonho até o buraco e jogar a terra já afofada sobre ele, num estalar de dedos, faz aparecer um coveiro bem disposto a fazer tudo sozinho. O homem só precisa esperar. Se for impaciente, faz aparecer uma cadeira confortável, uma revista e um uísque para matar o tempo. Caso esteja indeciso, lhe dá um amigo para conversar, talvez até o desaconselhar a enterrar o sonho. Se o amigo só servir para deixá-lo mais em dúvida, lhe dá um amor, uma família, um cachorro, um terapeuta e dinheiro comprar o que quiser. A maioria dos homens, espreguiçando-se sobre as delícias da espera, nem nota o trabalho do coveiro que nunca para. Alguns despertam sonolentos, no fim da vida, sentindo-se injustiçados ao presenciar o pomposo funeral do sonho. Outros simplesmente esquecem o que estão enterrando. Há um tipo de homem, porém, que faz o mais difícil: joga o coveiro, o uísque, a revista, a cadeira, o amigo, o amor, a família, o cachorro, o terapeuta e o dinheiro dentro do buraco. Por fim, para eliminar qualquer tentação de mudar de ideia, joga a pá. Agarra punhado por punhado de terra e os despeja sobre a profunda cova. Quando termina, tem as mãos em carne viva, nem um copo d'água para matar a sede ou uma sombra para descansar. É só começo. Está nu e a sós com seu sonho, uma bagagem que só não pesa mais que as dúvidas que esqueceu de enterrar.

domingo, 30 de agosto de 2009

A morte da história

A história estava dentro dela. Era escrita, reescrita, editada, entre nervos, pele, sangue. Memória? Mais que memória. Quem sabe um órgão? Coração, estômago, pulmão e a história. Negava a história, cutucava a história, matava a história, tirava-lhe o H na tentativa de transformá-la em estória, causo, piada, fantasia. Quimioterava a história, para torná-la frágil e pelada, para que ficasse com vergonha e fosse embora. Só infeccionava o que era óbvio: não se arranca a história feito tumor, apêndice, verruga. A história continua a se repetir dentro do coliseu de ossos e músculos. O único jeito de matá-la é não morrer com ela. Embalsamá-la em palavra morta, entre vírgulas e pontos, estrangular até imobilizá-la em duas dimensões, epitáfio de si mesma.