quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A bagagem certa

Comprei hoje um travesseiro em forma de ferradura e uma venda para os olhos, para estrear já na sexta feita, quando voo para Roma, primeiro destino de uma viagem de cinco dias por cinco países europeus. Eu mesmo já chamei de fresco quem usa esse tipo de apetrecho, mas acabei chegando à conclusão de que vale a pena tentar amenizar o desconforto quando vai se enfrentar longas viagens de ônibus, as mais desconfortáveis de todas, principalmente quando ultrapassam 12 horas. Na falta de um ombro, o travesseiro quebra o galho na hora de dormir no busão. A venda será mais útil nos hostels, já que em quartos com mais de 10 pessoas sempre tem gente saindo e entrando no meio da madrugada.

Os dois itens, compactos, diga-se de passagem, vão contra a minha crença de dimunuir cada vez mais a bagagem. Na minha primeira longa viagem, fiz por merecer o nome dado a esse tipo de jornada, mochilão. Carregava comigo uma daquelas enormes mochilas de 60 litros, com dezenas de roupas e sabe-se lá mais o que. Dessa vez, vou levar apenas uma mochilinha pequena, dessas do dia-a-dia. Comigo, só a roupa suficiente para uma semana; quando estiver tudo sujo, acho uma lavanderia.

Fundamental é levar as roupas certas. Como vou enfrentar o inverno europeu, comprei calças e camisetas térmicas. O par de calças lembra aqueles mijões que botam nos bebês, feio que dói, mas custou o equivalente a 8 reais e parece ser eficaz. Só espero que meus tênis deem conta do recado na hora de enfrentar a neve. Caso contrário, terei de comprar botas.

Fora isso, levo sempre comigo um ou dois livros, caderno de anotações e câmera fotográfica. Espero ter muito que registrar, saindo de Roma para Florença e seguindo de lá para Veneza, Viena, Budapeste, Bratislava e Praga.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Europa em cinco quadros

Minha viagem pela Europa tem valido por muitas faculdades. Uma delas, de arte. Abaixo, sem ordem de preferência, segue uma pequena seleção de alguns dos quadros que mais me impressionaram nos museus pelos quais passei até agora.
Ophelia, de Sir John Everett Millais - Tate Britain, Londres

Crucificação de Cristo, de Giotto - Louvre, Paris

As Meninas, de Picasso - Museu Picasso, Barcelona

Um dos Três Estudos Para a Crucificação, de Francis Bacon - Tate Britain, Londres

Campo de Trigo Com Ciprestes, Van Gogh - National Gallery, Londres

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Cara de brasileiro

Dizem que brasileiro não tem cara. Ô, povo multicultural! Tem brasileiro japonês, negro, índio e, às vezes, até branco. Tudo bem, pois ouçam essa: brasileiro tem cara, sim! E descobri isso aqui em Londres, essa espécie Babel horizontal e com metrô.

Falando em metrô, geralmente é lá que faço minhas constatações sociológicas. Dia desses, estava lá eu pensando em nada, e sentam duas japonesas na minha frente. Algo estranho com elas, parecia que as conhecia de algum lugar. Sei não, pensei. Até que as duas abriram a boca e começaram a fofocar em brasileiro ("... porque fulana... fulana é uma vaca!").

A partir daquele dia, toda a vez que tinha essa sensação, essa coisa de achar que conheço aquela pessoa de algum lugar, só espero a hora de ouvir a pessoa começar a falar português. Tenho comigo uma explicação científica que me veio sem nenhuma análise científica, de que conseguimos reconhecer uma carga genética parecida com a nossa. Se você não acredita, pergunta pra qualquer brazuca que já tenha vivido no exterior.

Claro que há outros métodos de reconhecer brasileiros, como gente furando fila e com a camisa do Corinthians. Mas esses métodos não são 100% seguros, levando em consideração que se encontra gente com mau gosto futebolítico e metido a malandro em qualquer lugar do mundo. Na dúvida, porém, se vejo alguém furando a fila já desato a falar as maiores barbaridades em português. Uma vez, na fila pra entrar na Catedral de Notre Dame, um sujeito com o filho entrou na minha frente. "Olha que vagabundo, com o filho do lado e furando fila", comecei a dizer. O sujeito olhou para minha cara e não disse nada, seguiu em frente. Mas não precisava dizer nada mesmo, porque eu vi, tinha cara de brasileiro.

Estranho que resolvi escrever isso tudo por causa de um cachorro, hoje de manhã. Se tem outra coisa que a gente reconhece na hora, além de brasileiro, é cachorro com más intenções. Estava eu em um parque, fazendo fotos da neve, novidade para qualquer ser tropical pela primeira vez na Europa, quando o pittbull passou me olhando. Eu fingi não ligar, olhei pra outro lado, mas comecei a me preparar pra correr. O cachorro, fingido, foi para o outro lado, deu umas voltas, esperou o dono olhar para o lado e disparou na minha direção. Eu, que não sou idiota, disparei na direção contrária. O dono do cachorro, vendo a cena, chamou a atenção do animal, que abortou a missão. Olhei na direção do sujeito, para ver se ele fazia algum sinal, algum pedido de desculpas. Nada. Ele estava entretido demais gritando com o cachorro. "Que merda é essa! Que merda é essa!", vociferava o sujeito para o animal, em português.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crônicas londrinas - o garçom e o popstar

Minha carreira de garçom de terceira classe por pouco não se agiganta nesta semana. A noite parecia nada promissora. Dos cinco enviados pela agência para a qual trabalho a um hotel de luxo em Mayfair, três foram escolhidos para trabalhar em um jantar para cerca de 20 paquistaneses bilionários. Entre os que sobraram, obviamente, estava eu. Não que minha tarefa da noite fosse totalmente prescindível, afinal, alguém tem que polir as taças de vinho para que os convidados não sejam escandalizados por uma eventual marca de dedo em seus copos.

Após mais de duas horas com guardanapo e taças na mão, aparece o gerente do hotel correndo. "Follow me, guys, quick", disse. Eu e a moça que estava comigo, da Etiópia, saímos em disparada atrás dele, que continuou passando as instruções. "Surgiu uma função para duas pessoas essa noite. Um dos convidados é bastante famoso. Vocês conhecem George Michael?"

A minha colega de trabalho começou a dar gritinhos nervosos, enquanto eu pensava que estava prestes a entrar para o seleto mundo dos criados de superstars. "Vocês só tem que abrir a porta, oferecer para pegar o casaco dele e servir canapés." E eu me pus a pensar se conseguiria eu fazer algo errado na concretização de tal tarefa e, fato inédito, não encontrei nada.

Claro que comemorei antes da hora. Os amigos de George Michael chegaram e, na hora de abrir a porta, empurrei para o lado errado. Meu gerente, que estava por perto, me corrigiu. "Sempre puxe a porta, não empurre", disse ele, uma das poucas criaturas educadas que conheci no mundo dos feitores de hotéis. Então, depois disso, me postei lá, feito um soldado, esperando o popstar mais conhecido por fazer sexo em lugares públicos e dirigir alcoolizado que por suas músicas.

Estava satisfeito porque, afinal, teria mais uma história para escrever aqui. Talvez, um texto estilo Piauí: "Vestindo um aveludado casaco Calvin Klein, na altura dos joelhos, George Michael chegou ofegante. Numa mistura de sorriso e careta, difíceis de distinguir por conta da barba desenhada, que lhe dá um ar caricatural, o cantor inglês sussurou um obrigado antes de se desfazer do casaco sobre o criado parado ao seu lado". Ou, quem sabe?, algo mais direto, feito Folha de S. Paulo. "O cantor britânico George Michael, 54, chegou ao hotel X, em Mayfair, Zona Central de Londres, por volta das 8h da noite de ontem. O objetivo da visita era se encontrar com produtores do seu novo disco, Nasci de novo depois da cadeia."

Duas horas depois, parado de um lado da porta, enquanto minha colega estava do outro, percebi que não seria aquela noite que daria tal upgrade na minha carreira na indústria dos serviços de hotelaria. Olhávamos entediados um para a cara do outro. O gerente passou apressado e disse: "Ele não vem. Podem voltar a polir os copos lá em cima". Àquela altura, subimos aliviados, cansados da longa espera, especulando sobre onde poderia estar o cantor. Preso? Em algum acidente de trânsito? Fazendo sexo em um banheiro público? Seja o que for, os jornais não noticiaram nada no dia seguinte.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A crise na Europa e o jeitinho lusitano

Dá para medir o tamanho da crise econômica na Europa zanzando por Londres, mais especificamente, pelos porões da cidade. Explico, é que aqui, nos hotéis, restaurantes, lojas, quase sempre, há uma entrada e aposentos para empregados que ficam abaixo do nível da rua. Estou me tornando um verdadeiro especialista em circular por esses labirínticos espaços.

Mas onde entra a crise? No fato de que não só brasileiros, indianos, chineses, africanos, tailandeses e outros imigrantes de países em desenvolvimento estão entre meus colegas de trabalho como garçom, para ganhar seis libras por hora. Também há, cada vez mais, europeus. Gente que fez faculdade, mas está desempregada em seus países. Ontem mesmo, trabalhei com um italiano da cidade de Peruja. Na semana passada, com duas espanholas das Ilhas Canárias. Na outra, uma francesa. Será possível saber que a coisa está afundando de vez quando eu começar a encontrar suíços, alemães ou pessoas de Andorra e de Luxemburgo carregando bandejas.

Tomando uma cerveja em Bricklane, uma espécie de rua Augusta daqui, encontrei João, 43 anos, um sujeito inteligente e bom de papo, que parecia estar feliz por falar a própria língua com alguém. Português, ele já trabalhou em construções e em cozinhas no Reino Unido. Cansou de tudo isso, foi morar numa invasão e espera chegar o benefício do governo. Quer viver às custas da rainha, disse o simpático malandro, enquanto tomávamos umas cervejas pra aquecer uma noite que devia estar pelos seus 3, 4 graus.

Durante o papo, ele botou para correr um mendigo que veio pedir um trago, mostrando sua credencial para vender uma revista beneficente, feita para sustentar os homeless. Perguntei para ele se nunca nenhum inglês demonstrou sinais de xenofobia contra ele. Rapidamente, me vi com um pedaço de ferro sobre o meu pescoço, sem ter como me mover. "Nesses casos, eu digo pra eles: 'Ou você me trata como um ser humano ou...'", disse João, com um sorriso no rosto e colocando de volta o pedaço de ferro em sua mochila. Depois de conhecê-lo, passei a ter certeza de que, assim como os sonhos de padaria e a bacalhoada, o jeitinho brasileiro é um produto importado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Crônicas londrinas - Operação Elephant and Castle

No último episódio dessas crônicas londrinas, eu me vangloriava da bela localização da minha casa, na Zona Leste da Metrópole, na saudosa Bethnal Green. Cansado de trabalhar feito louco, carregando bandejas para cá e para lá na festas dos ricaços, só para pagar o vultoso aluguel, nosso herói fez feito os pássaros no inverno e voou para o Sul, em busca de um aluguel mais barato. Next stop is... Elephant and Castle.

Eu e meu futuro parceiro de quarto, o jornalista, garçom tarimbado e galã de novela mexicana, Talis Maurício, seguimos para verificar a casa que eu havia encontrado em um site daqui, uma espécie de Primeira Mão sem aquela maçã nem aquela argentina dos comerciais. Não querendo ser indiscreto, mas o caminho entre a estação de metrô e a casa assustou meu companheiro de jornada. Não sei o que alarmou tão bravo homem foi o grasnado de algum corvo, há muito deles por aqui, ou paisagem lúgrube, tomada pelo fog londrino. O apartamento ficava dentro de um condomínio de prédios de aspecto meio tenebroso. Nos perdemos lá dentro e, quando pensávamos em desistir, ouvimos uma voz. Era um vulto, sobre uma espécie de passarela, quem gritava.

— Ei, quem vocês estão procurando?
— Estamos procurando uma casa?
— Quem vocês estão procurando?
— Loyd, o dono da casa.

Subimos as escadas para encontrar um sujeito alto, negro e vestindo um roupão e uma boa quantidade de jóias, tragando demoradamente seu cigarro. Apesar de o cara parecer um gangster, nós seguimos em frente. Junto com duas garotas que apareceram na última hora para ver o mesmo apartamento, fomos levamos para um labiríntico muquifo. A porta se abria direto para uma escada e, diferente do que estamos acostumados no Brasil, havia mais mais dois pavimentos para baixo. Quatro quartos, dois banheiros, chão rangindo, senhorio assustador e aluguel barato. As duas garotas zarparam de lá rapidinho.

Ao sair, apesar de todos os CONTRAS, olhamos ao mesmo tempo um para a cara do outro e dissemos: “Vamos morar aí?” O principal motivo da nossa tresloucada decisão foi que todos os outros três caras que morariam com a gente nasceram falando inglês, o que nos ajudaria muito na prática diária da língua. Fomos rápidos e, no dia seguinte, voltamos para pagar o depósito ao landlord (termo que usam aqui para definir o cara que aluga uma casa para você e é responsável pelos problemas que acontecerem nela, no nosso caso, como veríamos, só o cara que recebe o aluguel). Sim, lá estava ele, Loyd, com o meeeesssmo roupão, um cigarro na boca e fazendo cara de mau. Do meio de um montão de dinheiro que guardava no bolso, tirou um recibo, que nos deu pelas 200 libras de depósito. Com a grana no bolso, limitou-se a responder todos os nossos pedidos com um sorriso sacana no rosto e a frase: “It’s not my business”. O bordão se repetia mesmo quando o pedido era simples, como “você pode nos dar uma chave extra?”. Sim, ele era mau, muito mau.

Aluguel aqui é adiantado e, antes de passar a morar no nosso palácio, tínhamos de pagar o nosso. Um dia, mandei uma mensagem para Loyd marcando um horário para pagá-lo. Minutos depois, ele me liga.

— Você me ligou?
— Loyd, aqui é o Artur, que vai morar na sua casa...
— Casa? Não tenho nenhuma casa e não conheço nenhum Artur.
— Como não? Mas eu te paguei o depósito!
— Depósito?
— É...
— Hahahaha! Eu te assustei, né?

Filho da puta. Sim, quando fui pagá-lo, ele estava vestindo um roupão. Não mais o branco encardido das outras vezes, mas um roxo. Me deu um recibo e, só para me encher o saco, como se eu não existisse, botou o nome do Talis, que não estava presente, no papel. Pensei em quebrar a cara dele, mas mudei de ideia rapidamente, só para evitar a fadiga do combate.

Alguns dias depois, estávamos em nossa nova casa, que se revelou mais acolhedora do que pensávamos. Dividimos o apê com dois universitários, acho que um deles sulafricano, ou os dois, não sei, porque eles passam o dia inteiro ouvindo rap e jogando videogame em seus quartos. O outro morador, um inglês de meia idade, que já morou em metade do mundo trabalhando como gerente de hotéis, se revelou uma companhia bastante agradável, cheia de histórias para contar. Ah, claro. Não posso esquecer delas, as baratas. Não serei injusto a ponto de dizer que elas infestam a casa. Elas têm mesmo uma preferência especial por um cantinho, uma área onde se sentem à vontade: o armário onde guardamos nossas comidas. Mas, como diria o mano Darwin, naquele rap famoso, a Origem das Espécies, só sobrevive quem se adapta ao meio.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O caminho da ficção

A vida atravessa o caminho da ficção. A internet atravessa o caminho da ficção. O barulho lá fora atravessa o caminho da ficção. A TV, as notícias, o gerente do banco, as dívidas, a fome, a preguiça, o sono, o sonho, a ambição... O caminho atravessa o caminho da ficção. O labirinto é o caminho da ficção.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Barcelona


As viagens, digo as boas e longas viagens, são sempre carregadas de uma sensação de perda iminente. O olhar não sabe se desfruta ou se se despede daquilo que possivelmente nunca mais voltará a ver. Barcelona, tão brilhante que é, acentua essa característica e me leva do riso às lágrimas em segundos.

Sim, entendo aqueles que colocam faixas nas janelas, protestando contra a multidão de turistas que ronda a cidade todos os dias. Aquilo não me pertence e, se pertencesse, eu faria o mesmo. Ah, mas é impossível não ser íntimo de uma cidade que faz das varandas o varal para suas roupas de baixo e seus gritos de guerra. Andar pelas apertadíssimas vielas do bairro gótico é como ser abraçado por todos esses anos de história e estórias.

Cidade ensolarada quando a Europa começa a congelar, salpicada pela mágica de Gaudí, confeiteiro da arquitetura, que parece usar chantilly e jujubas nas suas construções. A Casa Batlló é o mais comestível de todos os edifícios que já conheci. O arquiteto também era especialista em disfarces... ou sou o único a achar que a Sagrada Família é uma nave espacial disfarçada de igreja?

Essa atmosfera fantástica se espalha pelas ruas. Basta dar uma caminhada nas Ramblas para se surpreender com os artistas que até flutuar flutuam em praça pública; ou passear pelo mercado de Boqueria, onde são vendidas as comidas mais coloridas do mundo. No bairro del Raval, o sonho ainda não acabou na Casa des Pueblos Rebeldes, onde os seguidores dos anarquistas que enfrentaram o ditador Franco ainda continuam a arquitetar planos contra o demônio capitalista.

Difícil é deixar tudo isso depois de alguns poucos dias por lá. Mas não há varinha de condão tão poderosa que mude certas circunstâncias da vida ou que simplesmente faça Barcelona desaparecer. Da Catalúnia e da minha memória.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O nobre e a paisagem


Passando por Richmond Hill, uma paisagem linda, que mostra o Rio Tâmisa e toda a cidade de Londres, fiquei intrigado com uma plaquinha explicativa bem discreta. O texto dizia que aquela paisagem era mundialmente famosa e que só havia sido preservada graças à iniciativa de um nobre do século 19. Diante da especulação imobiliária, que transformava todos os campos em novas construções, impulsionadas pela revolução industrial, o tal nobre simplesmente comprou a área toda só para preservar aquela visão da qual ele tanto gostava. Hoje, a área faz parte de um dos maiores e mais bonitos parques de Londres (onde não faltam enormes e bonitos parques). Fico pensando como seria bom se os ricos brasileiros pensassem desse jeito, mostrando que certas coisas não têm preço, em vez de seguir apenas as ordens ditadas pelo bolso. Mas, claro, obviamente isso tudo soaria pueril aos ouvidos deles.

domingo, 24 de outubro de 2010

Considerações desconsideráveis

Era pra eu ter tudo para escrever, mas acho que é mesmo na falta de acontecimentos, no intervalo, no tédio, que a literatura cresce. Aqui, andando pelo mundo todo, conhecendo gente e costumes que jamais imaginei, sobra pouco tempo para escrever qualquer coisa. Talvez, se o inverno conseguir me acuar dentro de casa, eu passe a escrever mais por aqui e em qualquer outro lugar, mesmo que seja para deixar perdido nas folhas de um caderno qualquer. Por enquanto, minha alma permanece sendo apenas uma esponja do mundo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Para os manos daqui, para os manos de lá

Você pode sair da Zona Leste, mas ela certamente não sai de você. Em Londres, não sei se por acaso, acabei no East End, que tem muito mais similaridades com a ZL em que cresci em São Paulo que a direção na Rosa dos Ventos. A grande diferença aqui, além do feliz fato de não haver tantos corintianos, é que cada tijolo da ZL tem pelo menos mil anos de história.

East é o lugar dos imigrantes desde a idade média, uma Cohab medieval. Primeiro, vieram os tais dos huguenotes, fugindo da perseguição religiosa, depois isso aqui se encheu de judeus, indianos, uma galera de Bangladesh (quem nasce lá é...), jamaicanos e, claro, uns brasileiros feito eu. Pelo censo, só 37% da população é formada pela categoria denominada "branco britânico". Por isso que eu digo, meu bairro é dos manos, dos muçulmanos (e das muçulminas também, aquelas que escondem toda a sua graça debaixo das burkas).

Depois de funcionar como uma espécie de fazenda de Londres, fornecendo vegetais para metrópole, o lado leste da cidade acabou virando um depósito de famintos falantes de todas as línguas. No século 19, aproveitando-se da quantidade de indigentes pelas ruas, Jack, O Estripador (aqui, The Ripper), começou a atacar na região de Whitechapel, aqui do lado de casa. Matou cinco e nunca foi pego, tornando-se o serial killer mais famoso de todos os tempos.

O metrô mais perto de casa, Bethnal Green, foi cenário da maior catástrofe coletiva da Inglaterra, quando 173 pessoas morreram esmagadas lá dentro. A confusão começou porque os metrôs eram usados como bunkers, esconderijos úteis durante o tempo em que os bombardeios de Hitler eram mais frequentes do que a chuva londrina. Metade do bairro foi destruída durante esses ataques, mas sobraram ainda muitos predinhos centenários feitos de tijolinhos vermelhos. É interessante ver como a história vai se ajeitando onde dá. Uma das igrejas do bairro, Bow Church, foi parcialmente destruída. Reconstruída, é possível notar a metade antiga e a recente, tanto pelas diferenças arquitetônicas como pelas marcas do tempo mais evidentes em um dos lados.

Meu minha casa, postcode E3 2QY, fica no bairro de Bow. Aqui, será o cenário das próximas Olimpíadas. Da janela do ônibus número 8 consigo ver o estádio enorme em construção. Ao lado de casa, tem o centenário mercado da Roman Road Market, onde posso comprar uma calça Levis usada por 8 libras ou meio litro da sagrada Guinness de cada dia por uma libra. Andando por lá, dá pra notar uma verdadeira integração de raças. Acessíveis, as ruas daqui se enchem de velhinhos em cadeiras de rodas elétricas e mães com bebês. Desconfio que alguns usem essas cadeiras de rodas mais por conveniência que por necessidade, caso contrário teria de dizer que esse país está mal das pernas, dada o congestionamento de veículos do tipo pela rua.

Os negócios na Roman Road são todos de família. Tem uma peixaria que representa bem isso, onde três gerações trabalham juntas. Os três, provavelmente de origem turca, são parecidíssimos e ostentam o mesmo bigodom. Apesar de haver muitas peixarias, muitos supermercados e lojas indianas que vendem tudo que é tranqueira, o principal negócio por aqui são as casas de aposta. São pelo menos umas oito ao longo de um trecho de rua que não ultrapassa cem metros. Os caras apostam em tudo: cricket, golf, rugby, futebol e até em tênis de mesa. Em inglês, jogar apostando é gambling. Todo jogador mira o jackpot, que é o prêmio principal. Eu vivo alheio a esse mundo cheio de cifras, já que jamais perderia uma Guinnezinha que fosse jogando.

A minha casa, descobri depois, também tem história. Hoje, uma respeitável residência estudantil, onde vivem empilhados nove estudantes, já foi um ponto de tráfico de drogas. Os moradores chegaram a incendiar a casa, parcialmente feita em madeira, ao final de uma festa. Assim como o bairro ostensivamente atacado por Hitler, a casa sobreviveu, mostrando que é ZL de verdade e que as outras zonas só servem para completar o espaço que resta na bússola.

PS. E não, claro que não sou bairrista, esse texto nada mais é do que uma tentativa revisionista de colocar os ponteiros nos seus devidos lugares, depois de tantos e tantos anos de privilégios ao Norte entre os pontos cardeais.

domingo, 3 de outubro de 2010

A vida estranha no East End

Cena um: eu na minha cama, mexendo no meu computador, no aconchego do meu (quase) lar em Bethnal Green. Cena dois: eu e um sujeito parecido com o Borat tentando entrar com uma televisão enorme num ônibus, o que razoavelmente é proibido pelo motorista. Cena três: estou em uma casa de uns chapados em Whitechapel, onde um italiano doidão toca um instrumento africano que eu nunca vi antes. Cena quatro: bebendo cerveja com um inglês que, depois de sair para buscar leite, voltou apenas com uma caixa de 24 cervejas e apanhou da mulher. Cena cinco: estou todo encharcado, em Mile End, procurando uma festa onde seria servida uma sangria espanhola, tendo Borat como guia. Cena seis: estou na minha cama, mexendo no meu computador, pensando que às vezes a vida em Londres tem algo de surreal.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ruuuuuush

Right now, I am going to Berlim. Friday, I am off to Amsterdã. The life is faster here. The world grows up under my eyes and I can touch everything. I'll carry with me just some T-shirts, two aples, a camera and an edition of The Journey to the centre of Earth. It's enough, now. And keep walking.

Não, não vou ficar escrevendo em inglês aqui não. Essa foi só pra praticar, enquanto não dá a hora de pegar o ônibus. Não sei o que esperar os próximos quatro dias. A única coisa da qual tenho certeza é que, em Amsterdã, não vou fazer nada que seja ilegal, nadinha de nada, mesmo porque difícil é achar alguma coisa que seja ilegal por lá. Dizem que matar os outros não é muito bem-visto.

É isso aí. Fui.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Childhood refound








Londres, para mim, tem sido o reencontro da infância. Itens de contos de fada e desenhos animados, como castelos, corvos, esquilos, princesas, armaduras, passaram a fazer parte do meu cotidiano. Sinto-me como se meus brinquedos tivessem crescido, quando passo pela Torre de Londres ou ao parar na Estação Baker Street, onde (mesmo que ficcionalmente) morou Sherlock Holmes. No Imperial War Museum, encontrei um avião da Segunda Guerra igualzinho ao meu super-caça bombardeiro dos Comandos em Ação.

Mesmo sem nunca ter sido grande fã do Tico e do Teco, me pego embasbacado diante do carisma dos esquilos, que chegam a subir pelas nossas roupas em busca de um pedaço de sanduíche. Perdendo-me pelas vielas, posso cair do sonho no pesadelo, ao dar por mim andando pelas mesmas ruas que o misterioso e temido Jack Estripador costumava agir.

Tamanha interação entre fantasia e realidade dá um ar onírico a essa viagem, me faz mergulhar na mesma atmosfera que torna mais intensos os prazeres dos sonhos e também os horrores dos pesadelos, o que felizmente varre para longe qualquer meio-termo que insista em povoar a minha vida.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Crônicas londrinas: a primeira noite de trabalho

Nunca estive tão elegante. Gravata, colete, camisa, tudo impecável. A bandeja na mão, decorando nomes de canapés e repetindo automaticamente: "Would you like some canapes?"

É minha primeira noite de trabalho, num hotel perto da Oxford Street, numa área chique de Londres. Coincidentemente, trata-se de uma festa brasileira, aparentemente um oba-oba do cinema bancado pelo BNDES. Apesar do luxo do hotel, os convidados nada têm de glamourosos. Até os mais cheios de pose enchem as mãos quando eu me aproximo com a bandeja cheia de "smoked salmon with mango sauce". Um sujeito parecido com o Jean Paul Sartre deve ter comido uns 40 canapés, sempre ignorando os guardanapos que lhe estendo.

No staff, alguns brasileiros, um indiano e vários lituanos. O gerente inglês parece ser um cara legal, sempre absorvido pelo trabalho e querendo ajudar. É ele quem aparece feito um raio para recolher os cacos de vidro quando, estreando novamente, deixo um prato cair no chão, no fim da festa. Ninguém me dá nenhuma bronca e, demonstrando simpatia, outros garçons me contam de quando deixaram cair taças cheias de vinho nos vestidos das madames. Eu não estou nem um pouco preocupado, já que o garçom é uma espécie de avatar de mim mesmo aqui e, portanto, a menos que alguém me belisque e me faça acordar, olho para tudo isso com a curiosidade e o desprendimento de quem está a passeio no corpo de outra pessoa.

Provo a comida estimulado pelos colegas que, no elevador, no trajeto entre a cozinha e o salão, aproveitam para matar a fome. "Help yourself", eles dizem. Salmão, atum, cogumelo, presunto de parma, coisa de primeira, tudo muito bem feito por um chefe francês que fala um inglês quase incompreensível. Trata-se de um sujeito extremamente performático, parecido com aqueles chefes de cozinha dos reality shows da TV a cabo, que pontua todos os seus pedidos aos cozinheiros com um "give me a fucking " qualquer coisa. Vendo que eu assistia a cena com curiosidade, o cozinheiro dá uma piscada para mim. A menos que fosse uma cantada, me parece que o se trata de um sinal de que ele encara tudo isso da mesma forma que eu.

Saio por volta da meia-noite e, graças aos brasileiros que não quiseram ir embora da festa logo, perdi o metrô. Espero cerca de uma hora pelo ônibus noturno na Oxford Street e, quando ele chega, sento ao lado de um indiano que insiste em deitar a cabeça no meu ombro. Demora uma meia hora para eu chegar até Bethnal Green, onde moro. (Com o tempo, fui descobrindo que meu bairro é considerado periferia aqui, apesar de ficar bem perto do centro. Pelas ruas, vejo dezenas de imigrantes de todos os países, desde mulheres de burka a homens usando estranhos turbantes. Apesar de supostamente ser um bairro pobre, aqui as casas são bonitas, as ruas são limpas, o sistema de transporte funciona e há vários espaços de lazer, incluindo o bonito Victoria Park. Logo, não tive nenhum problema para me adaptar a tamanha pobreza.) Levanto aliviado ao ouvir a voz que anuncia as paradas dizer: "Next stop is Roman Road Market". Intimamente, me pego desejando que o indiano dorminhoco passe do seu ponto, só para aprender a ser menos espaçoso. Ele está no quinto sono e se apodera de todo o assento.

Acordei tarde hoje, tomei um café com um nescafé genérico daqui e me preparo para sair rumo à escola de inglês. Enquanto escrevo, sentado na mesa da cozinha de casa, ouço no rádio um longo debate sobre o caso de infidelidade do astro do futebol inglês, Wayne Rooney, na LBC Radio. Pelo que compreendi, alguns ingleses culpam a apagada performance do atacante na Copa do Mundo ao medo de que a mulher dele descobrisse que fora traída, durante a gravidez, com uma prostituta de luxo. O noticiário cheio de fofocas é até interessante, o problema é que quase ninguém fala sobre a greve do metrô. Vou ter que descobrir agora, na rua, a extensão da paralisação. Em breve, volto com novas crônicas londrinas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

The red dusk

O vermelho do céu parece refletir no chão, coberto de folhas que anunciam o início do outono. Esquilos caçam comida entre os restos deixados pelos visitantes do Holland Park e um corvo acima do peso chacoalha os galhos mais miúdos do robusto carvalho. Meninos jogam críquete displicentemente no enorme gramado, enquanto o ex-primeiro ministro mostra sua indiscrição ao contar a intimidade da família real no London Evening Post. Nada de novo, exceto pelo fato de que tudo isso faz parte da rotina da minha nova vida.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

London, London

Dez dias que estou vivendo em Londres e as palavras me fogem, provavelmente assustadas com o bombardeio de imagens. Perco-me pelas ruas, olhando para todos os lados e atrapalhando o trânsito dos pedestres. Londres pode ser muitas cidades num mesmo quarteirão. É como se tudo isso sempre tivesse existido, como se o velho e o novo pertencessem ao mesmo tempo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Quase lá

Chegou o dia. Sempre com tantas palavras, todas elas caindo dos meus bolsos junto com as moedas, ocupando sempre tanto espaço, hoje não sei bem o que dizer. Provavelmente, amanhã, às 11h do Brasil, quando desembarcar em Londres, serei um homem de mais silêncios, dadas as naturais limitações com o idioma estrangeiro. Seis meses passam voando, mas são uma vida.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Eu algum, em todos os tempos

Em lugares onde há tanto não pisava, por mais que me esforce, andando rápido e esquivando-me de olhares, sou forçado a reencontrar um eu que há muito não sou. Vejo-o um tanto afobado, pretensioso, explodindo de energia e planos; talvez veja-o com uma certa condescendência, com a paciência que talvez ele não tivesse comigo. Ele certamente demoraria a me reconhecer e depois comentaria como você está acabado, talvez me cobrasse o que você fez da sua vida, me batesse você não tinha esse direito, me jogasse na cara esse não era o nosso plano ou me expulsasse saia daqui você estragou tudo. Talvez eu rebatesse a culpa é toda sua, toda ela, seu moleque besta, talvez não, provavelmente não. Antes de qualquer coisa, eu olharia para o lado, em silêncio, procurando o eu que ainda não sou, alguém que, espero eu, não precise me olhar com condescendência, alguém que me tranquilize deixa isso pra lá, você está no caminho certo.

domingo, 8 de agosto de 2010

O salto

Pés esfregando, nervosamente, a terra pedrosa, fazendo com que pequenos resíduos caiam longamente no abismo. A visão assusta, mas o barulho da sola de borracha em atrito com o chão traz uma certa calma. Um passo adiante e não haverá mais onde pisar. Hora de se concentrar na eternidade do salto, por mais que a distância cada vez menor entre o corpo e o solo possa dar essa inconveniente impressão de transitoriedade.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sempre

A ferida nunca para de arder
mesmo quando tudo está OK
Às vezes, parece que ela está lá antes de mim
Nos dias em que minha alma é um céu azul
aquela casquinha nojenta cresce sobre ela
e eu quase esqueço de tudo
Mas as nuvens são tantas
É impossível fugir das nuvens
Então meu peito se enche de sombras
e a chama gelada começa a crepitar

domingo, 11 de julho de 2010

Trecho de livro (recém-iniciado)

Eu chego em casa bêbado e releio Kafka, releio Kafka, releio Kafka. Sinto-me um personagem de Kafka, preso a um jornal cujo apelido é “moedor de carne”, que joga um cadáver de criança todos os dias no meu colo e me obriga a fazer salsichas com com ele. Uma menina, que não serviria para ser personagem de Kafka, cansou daquela merda e pulou do oitavo andar. Dizem que ela trabalhou até umas duas da manhã, numa sexta-feira. Foi uma das últimas a ficar na redação. Comeu pizza com o pessoal e fumou um cigarro. Comentou com alguém que se sentia mais confortável sem sapatos. “Vou tirar os sapatos, vou ficar descalça só um pouquinho que não agüento mais usar sapatos.” Quando ninguém estava olhando, ela pulou. Caiu em cima de um táxi. Por pouco não matou o taxista, que estava sentado no capô. Os motoristas do jornal que tavam de bobeira na rua àquela hora disseram que o carro ficou destruído. Uma menina magrinha, bonitinha, que eu dei uns beijos uma vez, numa dessas noites de bebedeira, quase dividiu um carro no meio. Ela era tão magrinha, beijava bem, mas era meio sem graça. Não dava perceber a tempestade que chovia dentro dela. Às vezes, eu olho pelas janelas. Apenas aquela garoa chata dentro de mim. Não o suficiente para rachar outro táxi no meio.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O gosto da lembrança

A gente gasta a sola de sapato do nosso juízo atrás de tantas pistas falsas que raramente nos lembramos do que, de fato, gostamos. Um momento à toa em que esquecemos de acreditar na nossa própria encenação é o suficiente para perceber que são sempre as mesmas coisas que nos fazem felizes.

Lembrei disso agora porque, meio sem perceber, botei Chico Buarque pra ouvir. E se tem alguma coisa que me faz bem nessa vida é ouvir de novo e de novo um montão de músicas de Chico Buarque, que canta na minha cabeça desde que eu era menino e gritava "joga BOSTA na Geni, joga MERDA na Geni", aproveitando-me da oportunidade para gritar palavrão na frente dos pais.

Música do Chico Buarque é, para mim, feito comida de mãe. É aquele tipo de coisa que, quando a gente não encontra nada de bom na vida, sempre vem pra nos contrariar. Sim, tem Chico, comida de mãe e os livros. É, eu que tanto tento escrever, tanto peno pra escrever, tanto desisto de escrever, sou bom de verdade é como leitor. Com um livro na mão, eu esqueço do mundo e descanso de mim mesmo, da voz que fala sem parar dentro da minha cabeça, cheia de exigências e recriminações, vontades, sonhos, lamentos, mentiras. Melhor ainda é quando cai nas mãos aquele livro que a gente não consegue mais parar de ler, nos obrigando a entrar pela madrugada, conscientes do preço de passar o dia seguinte feito um zumbi de tanto sono.

Outra coisa que eu gostava, assim desse jeito, era fazer gol. Depois de muito tempo sem jogar bola, um mês atrás participei de uma pelada. E fiz o meu. Minha participação, em meio à molecada muito mais rápida e em forma que eu, acabou por aí. Resfolegando, pedi para terminar o jogo como goleiro, mas com a altivez do artilheiro que cumpriu seu ofício.

Nessa vida de adulto, às vezes, a gente se pega não gostando de nada. Chegamos a entender aqueles velhos encarquilhados, que acham que já viveram demais, cansados demais para querer qualquer coisa, com preguiça até de coçar o nariz. Outros, porém, contrariando a natureza, vivem um tempão sem um pingo de saúde, só por gostar. Gostar da mulher com quem se está casado há 60 anos, da criação de pintassilgos, do jardim cheio de orquídeas geniosas ou do time de futebol. Gostar de algo, por menor que seja, é gostar da vida. Gosto de lembrar disso de vez em quando.

sábado, 3 de julho de 2010

O silêncio que ninguém nunca ouviu

Com tanta gente dando opinião sobre tudo, de que vale mais uma? Com tanta gente escrevendo sobre tudo, pra que mais palavras? Precisamos de mais silêncio, por mais paradoxal que seja dizer isso.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Talvez seja eu, talvez

Tento achar a solução para minha vida num horóscopo da internet, feito por um computador tão bom em escrever coisas genéricas que parece mesmo que fala só para mim. Falasse outras coisas, o contrário, talvez eu tivesse a mesma impressão de exclusividade. Simplesmente porque não tenho a mínima ideia de quem sou (o que o horóscopo chama com o pomposo nome de "o retorno de Saturno").
Tenho, sim, a impressão de saber quem fui. Quase milimetricamente, claramente. Mas, feito o cachorro que corre atrás do rabo, sempre chego atrasado a mim mesmo. Quando passo a saber quem sou, já não sou mais essa pessoa.
Às vezes, queria ser ninguém. Ou simplesmente escolho um dos milhares que fui e me apego àquela figura com uma nostalgia melancólica, como se o melhor de mim tivesse dissolvido na matéria da vida. Ou posso querer ser outra pessoa: quantas vezes quis ser outras pessoas, problemáticas e charmosas, famosas ou anônimas, pessoas!
Talvez possa tentar me apegar ao que queria ser, ao que serei. Mas esse exercício revelou-se uma enorme perda de tempo, já que sempre que fui o que queria estive completamente insatisfeito e amarrado por essa situação. Quando não fui, porém, não pude escapar da frustração, esse sentimento que adora tripudiar sobre a gente, aquela voz que ri quando perdemos um pênalti.
Qual é a solução para isso? Obviamente, não será nesse texto que alguém vai encontrar. Talvez quem esteja lendo isso saiba perfeitamente quem é, e por isso zombe da minha falta de autoconhecimento. Talvez sua personalidade seja algo tão palpável que você possa montá-la e desmontá-la feito lego. Comigo as peças encaixáveis derretem-se umas sobre as outras até formar uma massa disforme que sou obrigado a chamar de eu.
Trata-se de um estado labiríntico e kafkiano, cheio de portas que dão umas nas outras infinitamente. Soubesse quem sou, certamente não saberia responder à pergunta seguinte: "O que eu quero?" Li em algum lugar que a vida é uma peça em que o ator entra em palco, gagueja em sua única cena e depois desaparece para sempre. Talvez _ novamente, essa palavra! _ essa seja minha fa,fa,fa, faaaa...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A magia nas prateleiras

Matéria minha publicada no início do mês no Jornal do Commercio, sobre o cara que escreveu o conto que inspirou o nome deste blog.

» LITERATURA
O mundo fantástico de Rubião
Editora Companhia das Letras reúne em um único volume os 33 contos do escritor mineiro. Sobrenatural é uma das características mais marcantes da obra deste autor de poucas palavras

Artur Rodrigues
Especial para o JC
Pouco mais de 200 páginas. A isso se resume a obra completa do escritor Murilo Rubião (1916-1991), que acaba de ter todos os 33 contos que publicou em vida relançados em volume único pelo selo Companhia de Bolso (da Companhia das Letras). Não se engane pelo tamanho, quando se trata de Rubião, a escassez torna cada uma das páginas mais valiosa. De tanto reescrever, numa incessante ourivesaria, mais justo seria chamá-lo de reescritor. Escreveu muito, aproveitou pouco, publicando sete livros magricelas, tão finos que mesmo juntando todos fica difícil deixá-los de pé na estante. Talvez por conta dessa economia, talvez pela pouca tradição brasileira na literatura fantástica ou por insistir no conto como único meio de expressão, um dos precursores do cultuado realismo mágico viva ondas de reconhecimento e esquecimento, sendo hoje quase desconhecido no Brasil.
Antes mesmo que o principal nome do realismo mágico, Jorge Luís Borges, lançasse seus primeiros volumes de contos, Rubião já tentava publicar seu primeiro livro, O dono do arco-íris, em 1939. Tão estranhas eram as histórias para a época que só em 1947 ele conseguiu achar quem topasse publicar o livro, mas com o nome alterado para O ex-mágico da Taberna Minhota. A história-título narra a melancólica vida de um homem que se torna funcionário público (um jeito de “suicidar-se aos poucos”) na tentativa de acabar com os inconvenientes poderes mágicos. “Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante”, relata o personagem, sobre o momento em que deu conta de que estava vivo.
Essa total falta de surpresa com o sobrenatural é uma das características mais marcantes das criaturas rubianas. Em vez de partir de uma situação comum que vai ganhando contornos extraordinários gradualmente, como faziam então a maioria dos escritores, as narrativas de Rubiãojá começam totalmente imersas em um universo fantástico e opressor. Daí a sensação de se estar lendo algo muito parecido com Franz Kafka em contos como A armadilha, A fila e Os comensais.Rubião admite a semelhança com a obra do autor de O processo, mas garante só ter descoberto o escritor depois de publicar seu terceiro livro.
Entre as inspirações assumidas, está nosso defunto-escritor, Brás Cubas, narrador da primeira e mais importante história fantástica brasileira, escrita por Machado de Assis. Homem de pouca fé, como Brás Cubas e o próprio Machado, Rubião foi buscar na Bíblia a magia para seus contos. Cada uma de suas narrativas tem uma epígrafe bíblica, uma conversa mantida entre o escritor e o mais fantástico livro da história. O Apocalipse, para Rubião, era um “manual de surrealismo”. Já os amigos ilustres, como os escritores mineiros Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, pouco influenciaram na temática rubiana. Na forma, porém, foram fundamentais. Convenceram um mau poeta a tornar-se um primoroso contista. Um escritor que escrevia mais para si que para os outros, que rasgou dois livros de poesia e ninguém sabe quantos de prosa. Coisa de enredo fantástico, chegou a perder os originais de um livro inédito em um táxi em BH.
A vida de jornalista e funcionário público na capital mineira também pode ser captada nos contos de Rubião. Travestidos de pesadelo, estão lá a burocracia do funcionalismo público, o enlouquecedor ambiente das redações de jornal e o caos da cidade em crescimento. Um mundo onde impera um eterno presente, sem esperança nem chance de fuga da rotina, impregnado de uma desolação que tem um quê de bela e irônica. Rubião, com maestria, subverte a lógica que conhecemos para denunciar quão absurda a realidade é.


domingo, 6 de junho de 2010

A mulher dos olhos de abismo

A viagem de avião custava a acabar. De olhos semicerrados, tentava dormir. De repente, meus pelos se arrepiaram. Era como se, subitamente, estivesse completamente só na vida. Abri os olhos. Não olhei diretamente para ela. Era a única luz acesa, a luz de leitura do avião que iluminava os olhos da velha. Como se tivesse atraído por um imã, meu olhar vagueou até encontrar com o dela. A mulher dos olhos de abismo.

Era uma velha dos cabelos cinzas e olhos negros. Segurava uma boneca com força. Enquanto olhava para mim com seu olhar malicioso, apertou a barriga da boneca, que soltou um grunhido de dor. Senti aquele ruído ecoar dolorosamente dentro de mim. Na minha cabeça, uma voz cantava: “A mulher dos olhos de abismo guarda a morte no peito. Esconde, sob trejeitos de carinho exagerado, a dor de ter nascido.”

E eu estava em queda livre. Não tenho ideia de quanto tempo durou. Eu estava vidrado nos olhos dela e, para minha surpresa de descrente, vi brotar uma reza da minha boca. A reza dos desesperados, dos que não têm mais nada, dos casos perdidos.

Coloquei meus óculos escuros, enquanto lágrimas umedeciam todo meu rosto. A velha, pela primeira vez, hesitou em olhar, esticando e recolhendo a cabeça várias vezes. A movimentação me lembrou a de um animal brincando com a caça, prestes a devorá-la, jogando a para o alto com a boca.

Desorientado, tentando desviar a atenção daquilo tudo, pego meu caderno e começo a rabiscar essas palavras. A luz se acende e o comissário de bordo anuncia o pouso próximo. Ela continua olhando para mim. Eu continuo escrevendo.

A velha se levanta e caminha em direção ao banheiro do avião. Dá alguns passos e desmaia. Sim: tomba bem no meio do corredor!

Aos poucos, vou recobrando as forças. Tenho vontade de levantar, ir até ela enche-la de chutes. Deixo de fazê-lo não por qualquer espécie de escrúpulo, mas por medo. Alguns levantam de suas poltronas e vão acudi-la. Repito em voz baixa: “puta, puta, puta, puta”.

A velha é colocada em uma poltrona onde não consigo vê-la. Está com duas mulheres, uma delas carregando a boneca. Aparentemente, são filhas dela. Não entendo bem a situação: fico imaginando pra que a porra da boneca. Não consigo chegar a uma conclusão. O que aconteceu, afinal?

O avião pousa. Fico sentado na minha poltrona, esperando que elas saiam do avião. Estou curioso e resolvo levantar para vê-las. As avisto de costa. Estão lá, as três, com seus brinquedos e malas. Gente comum, gente invisível, como todas as outras. A velha vai no meio, escorada. Some na turba do aeroporto. Respiro fundo, demoradamente. O abismo está nos olhos de quem, nos meus ou nos dela? Com os pés no chão, fica difícil saber.

terça-feira, 4 de maio de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hiato

Um pouco sem tempo, um pouco com preguiça, um pouco. Mas essa semana termino uns dois textos que estão engatilhados para postar aqui.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O cavaleiro do Poço da Panela

O trote do cavalo, o tamborilar nos paralelepípedos da Estrada Real do Poço, em pleno século 21, parecia inacreditável. O natural, diante de som tão sobrenatural, seria que o barulho do cavalo se aproximasse e desaparecesse, sem a aparição de nenhum animal. Seria só mais um galope da imaginação. Mas, subitamente, veio o menino em seu cavalo. Sem sela, montado no pelo, tinha uma camiseta na cabeça. No rosto do cavaleiro, um sorriso de alegria. Atrás dele vinham outros garotos, todos desmontados, certamente escudeiros do primeiro. Até eu fiquei com vontade de seguir o menino cavaleiro pelas ruas do bairro que existe em todos os tempos ao mesmo tempo, mas, naquela hora, eu estava atrasado. E o cavaleiro se foi...


PS. Vejam a galeria de fotos que eu e Diana fizemos do Poço da Panela em http://picasaweb.google.com.br/artur.rodrigues/PocoDaPanelaPorDianaEArtur

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A foto perdida e a briga do século


Não me lembrava de ter posado para essa foto. Não me lembrava sequer de que alguém dessa turma tivesse uma câmera, já que ninguém tinha dinheiro para nada nessa época, muito menos para comprar e revelar filmes. Provavelmente, essa excursão, a um sítio, foi paga por algum candidato vereador, como é comum acontecer em épocas de eleição. De mim, o sujeito não ganhou nenhum voto, porque nem título de eleitor eu tinha na época.

Devia ter 16 anos, por aí. Estou sentado, com a camiseta do São Paulo, magrinho e com mais cabelo que me lembro ter tido. Alguns dos fotografados, todos ilustres moradores de Artur Alvim, na Zona Leste de São Paulo, continuam meus amigos. A grande maioria, porém, eu nunca mais vi. Dois deles não vi por um motivo bastante especial: eles morreram (o sujeito de pé, ao centro, usando boné e camiseta branca, morreu afogado depois de entrar bêbado no mar; e o adolescente também de pé, de camiseta azul, tomou seis tiros alguns anos depois dessa foto).

Esse dia não foi um dia comum. Não foi só um monte de adolescentes jogando futebol, bebendo refrigerante com cachaça vagabunda e procurando, em vão, conhecer alguma menina para depois contar vantagem sobre o que não fizeram. Foi muito mais que isso: esse foi o dia da briga do século. OK, houve brigas maiores, principalmente se incluirmos torcidas organizadas e as guerras mundiais nessa conta, mas foi a maior briga de que me lembro ter participado. (Eu, que nunca fui de brigas, eu, que na categoria individual tenho um cartel de duas lutas, com uma vitória e uma derrota, ressaltando que a vitória se deve principalmente a um tropeço do adversário em uma pedra.)

Alguns dos que estão na foto saíram para dar uma volta, procurando garotas. Sabendo que a ronda seria infrutífera, resolvi continuar a beber, provalemente, a minha pinga com groselha. Pois bem, os que saíram atrás de mulher acabaram encontrando confusão. Voltaram correndo para buscar ajuda e acharam um monte de bêbados prontos para trucidar o primeiro que aparecesse. Ali no meio, com meu cartel insignificante, segui a turba.

Éramos muito mais numerosos que nossos inimigos. Éramos muito mais barulhentos que eles. Éramos muito mais briguentos que eles. Pelo menos, os que estavam comigo eram. Um dos nossos entrou sozinho no ônibus dos caras e foi jogando os inimigos para fora. Outro grandalhão pegava os pobres coitados pelo pescoço e os esganava. Vendo tudo isso, eu me animei. Me achei na obrigação de participar daquele episódio de bravura e idiotice juvenil.
Vi um sujeito correndo e passei a persegui-lo. "Preciso acabar com esse cara em grande estilo", pensei. Resolvi, então, dar uma voadora no sujeito. Lá ia eu, voando, quase um Bruce Lee, um Ryu do Street Fighter, a ponto de acertar um pontapé na cara do inimigo, quando meu rosto se encontra subitamente com um cotovelo no ar. Sim, o sujeito que até então fugia de mim foi mais esperto que eu e deixou o cotovelo bem paradinho enquanto minha cara se aproximava por conta própria. Pode parecer ridículo, mas até hoje só consigo lembrar dessa cena em câmera lenta.
Se aqueles passarinhos que giram em volta da cabeça dos personagens de desenho animado existissem, eu teria visto uma revoada. E quando voltei a mim, a briga já havia acabado e meu nocaute em nada havia de abalar a vitória retumbante dos meus amigos.

Depois disso, assisti a outras tantas brigas, algumas das quais com finais trágicos, com gente baleada, sangue no chão, mães chorando, mas não me meti em nenhuma delas. Pensando bem, talvez o principal culpado pelo meu pacifismo atual tenha sido aquele cotovelo. Aquele cotovelo anônimo me fez ver que nasci para ser testemunha, não protagonista das brigas. Pode ser que isso me renda menos glórias. Pode ser que elimine todas as minhas possibilidades de ser um Aquiles ou um Ulisses, um Hércules ou um Sansão, um Wolverine ou um... Mário Bros. Em compensação, causa muito menos hematomas. Hoje em dia, para mim, isso está mais do que bom.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A despedida do rei

Continuarei sem nada pedir. Não receberei, porém, nada menos do que quero. A medida das coisas é a medida do meu desejo. É-me preferível o vazio à satisfação pela metade. Minha cabeça não processa metades. Não me lembro de me flagrar querendo tomar meia taça de vinho ou comer meio pedaço de pão. Admito que, em momentos de covardia, cheguei a agradecer metade como se fosse o dobro ou o triplo. Mas tenho a desculpa justa de poder chamar essas ocasiões de diplomacia.

Posso até lidar com os excessos, mesmo que seja encharcado por eles, mas perdi a paciência para a falta. Pois ela, a vida, que me cativou pelo exagero, passou a administrar-me, de repente, pelo regime da escassez. Caso a privação fosse temporária, ocasional, só serviria para ressaltar as benesses de um cotidiano marcado pela abundância. Agora, quando o muito só aparece na insustentabilidade do pouco, lembra uma cereja sem bolo, flutuando no ar sem razão alguma de existir.

Sou eu a cereja sem bolo. Ao ver a coroa separar-se da minha cabeça, depois de uma longa vida a serviço do povo, minha coroa levada pelas mãos sujas daqueles barbudos grosseiros, desses bárbaros travestidos de revolucionários, fico com mais pena dos meus súditos que de mim. Nesse momento de esperança, de ilusão, transfiguraram-se em mim. Cada um em sua choupana pensando: sou a nova majestade. Todos eles degustando lavagem com a arrogância de quem está prestes a se deliciar com lagosta e vinho. Não desconfiam, os pobrezinhos, que minha coroa só cabe em uma cabeça de cada vez; e só encaixa direito em uma, a minha, não importa quantos se achem donos dela.

Nesse catre, não tocarei em nenhuma comida que não tenha sido feita pelo meu cozinheiro e não beberei nenhuma bebida que não venha da minha adega. Estando meu cozinheiro preso e minha adega sendo violentada por paladares bárbaros, definharei de cabeça erguida, sem dar a eles o gosto de transformar minha queda em um espetáculo. O show será dado pelos próprios barbudos revolucionários, que matarão uns aos outros na tentativa de sentar no meu trono até não sobrar mais ninguém.

O contra-ataque dos meus cavaleiros, mais hora menos hora, deve chegar até aqui. Não pretendo esperá-los, porém, sob pena de perder meu tempo e dignidade. É bem provável que eles percam batalhas e acabem nas masmorras. Alguns podem acabar juntando-se ao inimigo, o que seria muito doloroso de se ver _ cavaleiros guerreando ao lado de soldados amadores?

A essa altura, a única coisa que aceitaria deles, mesmo que abaixo do meu nível de exigência, seria uma mulher. Não precisaria ser linda, bastaria que fosse jovem, limpa e que não fosse a rainha _ colocada em outra cela, no único gesto de hombridade por parte dos bárbaros. As câmeras por todos os lados tirariam a privacidade durante o ato, mas eles certamente aprenderiam alguma coisa vendo a cópula real. Não, por mais selvagens e despreparados que eles sejam, jamais me dariam essa oportunidade _ certamente o populacho ficaria impressionado com a minha performance e me levaria nos braços de volta ao trono! O que eles querem, acima de tudo, é o contrário: desmontar minha imagem pública, com o bisturi sempre eficaz das ilhas de edição. Quem sabe montar um filme mostrando minhas últimas horas de vida, minhas intimidades, meus momentos de fraqueza?

Se depender de mim, perderão seu tempo. Mesmo no único trono que me resta, trato de manter a compostura que nos diferencia. Ao fim de tudo, só me arrependo de não viver o suficiente para ver no que eles se transformarão. Vira-latas com jubas de leão, talvez? Pastiches de rei, com roupas de soldados? Tivesse a companhia de um dos meus magos, poderia ver o futuro em qualquer talher de prata. Mas queimaram-me os feiticeiros e roubaram-me a prata, portanto, resta-me apenas a imaginação para rir deles durante tempo que ainda tenho.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nós, os hamsters e a rat race



Uma amiga me apresentou a uma expressão que, imediatamente, casou com uma sensação que há muito conheço. A expressão é rat race. Ao pé da letra, seria corrida de rato, o nome dado para aquelas rodinhas que os hamsters ficam rodando inutilmente nas gaiolas. A expressão é sabiamente usada para definir aquelas épocas em que nos afogamos em nossos empregos _ carreiras? _ e não enxergamos mais nada.

Se você reparar bem, já perdeu vários anos da sua vida feito os hamsters, correndo sem chegar a lugar algum. A diferença é que eles vivem numa gaiola e não têm para onde ir. Você, um ser humano livre, poderia estar em qualquer lugar, mas está se matando para crescer dentro de uma empresa. Você, ser humano adulto, está preso ao que seus chefes e colegas acham de você. Você, ser humano único, passa a achar que é um pedaço da empresa. Você, ser humano o quê?, não sabe mais quem é você.

Passei por isso tantas vezes, muitas delas tendo consciência da roubada em que estava me metendo. Usava desculpas do tipo: "Estou fazendo isso apenas temporariamente, mas não levo nada disso a sério". Daqui a pouco, lá estava eu perdendo fins de semana pensando no trabalho da segunda-feira. Em uma conhecida empresa jornalística paulistana na qual trabalhei, teve gente que saiu da redação de cadeira de rodas, quase explodindo de nervoso, enquanto os tiranos da salinha de vidro ganhavam seus salários de dois dígitos para não fazer nada. Não é à toa que o lugar foi apelidado de sucursal do inferno.

Quando a coisa chega a esse ponto, quando se está prestes a entrar no escritório e atirar na cabeça até da mulher do cafezinho que não tem nada a ver com a história, deveria entrar alguém na cena e dizer: "Pegadinha do malandro!". Ou: "Isso aqui é só uma encenação. Não é de verdade, é uma espécie de reality show, um microcosmo". Ou ainda: "O que acontece aqui só é importante aqui, não no resto do mundo. Vamos, tenha mais senso de humor". Essa pessoa até existe, na nossa cabeça. De tanto ser ignorada, às vezes, resolve não perder mais tempo com a gente. Se déssemos atenção a esses alertas, seríamos mais satisfeitos com a vida, tenho certeza disso. Veríamos as coisas do tamanho que elas realmente são, não na lente de aumento do ambiente corporativo.

Os hamsters, claro, não concordariam com essa teoria, satisfeitos que estão com suas vidas. Longe da gaiolinha cheia de pó de serra, em vez de viver um ano, poderiam durar menos de um mês. Certamente seriam comidos por gatos, cachorros e outros animais famintos. Além disso, não tenho dúvidas de que, fofinhos e inofensivos que são, seriam motivo de chacota entre as escoladas ratazanas. Chego a desconfiar que os hamsters nunca viveram no mundo real. Nasceram nas gaiolas, só para sua rat race. Nós não.

sábado, 27 de março de 2010

Reset mental

Às vezes, fico pensando como seria legal poder dar reset no cérebro. O que foi salvo, foi salvo. O resto desaparece no limbo dos pensamentos. OK, sei que isso teria muitos efeitos colaterais, como não se aprender com os próprios erros e ter a sensibilidade exacerbada daqueles que vivem em redomas. Mas seria só às vezes, só quando o que martela na cabeça faz tanto barulho que não dá para ouvir mais nada, só quando dá vontade de desaparecer. Dizem que alguns monges budistas sabem fazer isso, mas fazem tanto que suas cacholas tornaram-se um reset contínuo, ecoando mantras ininterruptamente.

terça-feira, 9 de março de 2010

Duas rodas e a cidade em extinção

Andar de bicicleta e olhar casas antigas do Recife tem sido o meu passatempo noturno nos últimos tempos. Em São Paulo, cheia de subidas e com paisagens totalmente desinteressantes, meus planos de tornar-me um ciclista de verdade acabaram virando motivo de piada entre quem me conhecia. Afinal, a bicicleta que uso hoje foi comprada há uns dois anos e, até trazê-la para o Recife, havia pisado no asfalto no máximo três vezes. Minha figura roliça, fumante e beberrona também não ajudava.

As vantagens são que o Recife tem ruas planas, que facilitam as coisas para quem quer andar de bicicleta, e casas antigas, para olhar, obviamente, já que não tenho hoje a mínima possibilidade de comprar uma delas. Todas as noites, lá vou eu cobiçar as casas alheias, construídas há 300 anos, espaçosas e espremidas entre os prédios que devoram a cidade. Passo, olho para dentro, vejo os móveis, se tem alguém, se estão abandonadas, se são habitada por velhinhos ou por gente nova, por artistas plásticos descolados ou executivos de gosto retrô. Claro que a maioria das respostas não tem o menor rigor científico, não passa apenas de ficção que crio para me entreter. Mas olho, descaradamente, a ponto de, vez por outra, ser seguido algum tempo por viaturas da polícia. Logo eles me esquecem, visto que ladrões não costumam andar de capacete e luzinhas piscando, só para facilitar o trabalho da polícia.

E há tanto o que ver aqui. São tantas casas, tantas ruas de paralelepípedos, tanta história que, mais cedo ou mais tarde, vai ser atropelada por um shopping ou um condomínio residencial. Mesmo sendo tantas, essas construções estão em extinção, já que os arpões das empreiteiras derramam cada vez mais sangue da cidade, forrando quarteirões de casas demolidas com suas placas de "EM BREVE: 3 DORMITÓRIOS, DUAS SUÍTES, DUAS VAGAS NA GARAGEM".

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um folião paulistano no Carnaval de Pernambuco

Começou o ano, finalmente, em Pernambuco. Quem atrasou o início de 2010 em quase três meses foi o Carnaval. Paulistano, eu não tinha ideia do que era isso, Carnaval, aqui, tão importante quanto o Natal. Mais que isso, para não haver dúvidas, o Carnaval é como se fosse o aniversário de todo mundo ao mesmo tempo. Como não cabe todo mundo em uma casa só, todo mundo vai pra rua.

A rua é como se fosse o salão de festas, todo decorado. O bolo, aqui no Recife, é um galo enooorme, no meio da ponte Duarte Coelho, sobre o Rio Capibaribe. Ninguém come o galo, mas não faltam galinhas para quem gosta...

O espírito está por toda parte, por Pernambuco todo. Mas se o Carnaval tivesse um endereço certamente ele seria o Sítio Histórico de Olinda. Sempre me perguntei por que os portugueses resolveram construir uma cidade num lugar tão alto, cheio de ladeiras. Dá trabalho pra ir na padaria, no mercado, imagina voltar para casa bêbado com tanta subida pra subir... Pois é, descobri que Olinda foi criada para o Carnaval. E que ladeira, ao som do frevo e com um latona gelada de cerveja na mão, vira descida. Eu, um notório preguiçoso, subi várias vezes a mais cruel das subidas, a Ladeira da Misericórdia, como se estivesse flutuando.

Seria muito dizer que a gravidade desaparece no Carnaval de Olinda? Não. Tanto que me pendurei em um dragão voador, o mascote do bloco Acho é Pouco, criado por comunistas doidões na época da Ditadura e hoje administrado só pelos doidões mesmo. O bordão do bloco é "Eu acho é pouco! É bom de mais! Eu acho é pouco! É bom demais", cantado na noite de terça-feira, poucas horas antes da tal "quarta-feira ingrata, chega tão depressa, só pra contrariar..."

Pois é, estava esquecendo do melhor: em Olinda, axé music é proibido. Quer dizer, é proibido passar com trio elétrico, o que de qualquer maneira afasta os cantores de axé. O frevo, que todo mundo canta no Carnaval, é uma música muito antiga. Parece que ninguém mais faz frevo e, se faz, ninguém canta antes de a composição fazer 50 anos. É que nem vinho bom...

Ahhh, não tem abadá, aquela camiseta que custa 300 reais na Bahia. Aqui, as pessoas pensam o ano todo nas fantasias que vão fazer. Eu, paulista que deixa tudo para a última hora, não pensei. Peguei uma roupa amarela, umas caixas de Sedex e me fantasiei de Sedex 10, só para não passar vergonha. Mas tem gente com fantasias geniais pela rua. No domingo, sai o bloco Enquanto Isso Na Sala de Justiça, em que todo mundo se veste de super-herói. Tem desde X-Men a gente que inventa outros heróis, como supermercado, superficial, superado...

Tem esses blocos tradicionais, mas tradição não é quesito desclassificatório no Carnaval de rua. Teve um sujeito que foi trocar a porta de casa durante o Carnaval. No trajeto para levar a porta nova, ganhou um montão de seguidores. Virou um bloco, chamado A Porta. Tem orquestra, estandarte e dezenas de adeptos que saem juntos há mais de 10 anos.

No jornal em que trabalho, é proibido usar a palavra irreverência nas matérias sobre o Carnaval, desgastada pelo uso incessante em TODAS as matérias nos anos anteriores. Mas, devo admitir, que é a palavra perfeita para definir esse espírito. No ano que vem tem mais irreverência. Agora, o jeito é se conformar com as festas pós-carnavalescas que ainda restam. Me disseram que uma delas se chama Não Acredito Que Te Beijei.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A prostituta dos sentimentos

Há um mês, eu acordava, escovava os dentes e ia para a cozinha. Abria a garrafa de café, fosse quente ou frio, colocava um pouco no copo americano, jogava uma colher de sopa de açúcar e mexia sem colher mesmo. Acendia um Marlboro Light na sacada e tragava fundo. Uma onda de alívio surgia no meu corpo, geralmente um formigamento agradável, seguido por uma tosse, extremamente desagradável (ãrrãrrããããããã!!!).

Depois disso, eu enchia um copo de leite com nescau e comia um sanduíche de queijo e presunto devidamente derretido e tostado na frigideira até que o pão de forma adquirisse aquela consistência mais rígida e ficasse escurinho no centro. Ao chegar no trabalho, ia até a máquina de café expresso, colocava a moeda e me inebriava com o cheiro do café recém-torrado. Enchia o copo de plástico de açúcar e chacoalhava. Acendia o segundo cigarro do dia. Nas duas horas seguintes, faria isso mais três ou quatro vezes, cada vez com menos prazer. Até a última, pouco antes do almoço, quando começava a sensação de envenenamento.

Desde o começo de fevereiro, tudo mudou. De manhã, acordo e como um prato cheio de frutas (geralmente, manga, mamão e o que mais tiver em casa). Depois, tomo iogurte e, no fim do mês, quando as compras acabam e a grana diminui, leite com granola. Não fumo nem antes nem depois. Não fumo nunca, mesmo. Ao chegar ao trabalho, bebo o mesmo café, mas em outro contexto. Com adoçante. Pouco direi sobre o resto do meu dia, no qual troco o macarrão com rabada do almoço por alface com peixe, para não entediar os leitores imaginários deste blog.

Meu corpo se ressente com a mudança. É como se me tirassem um órgão a cada dia que passa (a essa altura, só deve me sobrar o baço, que descobri ser um órgão recentemente, mas ainda não sei para que serve). Ele, meu corpo, bem sabe que o motivo dos meus sorrisos não era bem o Sol, a praia, a cerveja gelada e os seres bonitos que andam para lá e para cá com roupas mínimas. Meu sorriso era diretamente proporcional a Ela, a Dopamina, o neurotransmissor que poderia ter evitado o holocausto se circulasse pela cabeça daquele pobre bigodudo mal-amado (saiba mais aqui). O neurotransmissor que fez do cigarro, da cerveja, do sexo, do pão, do chocolate, coisas tão prazerosas aos olhos dos nossos geniosos neurônios.

Sem Dopamina, não enxergo o Sol nos ensolarados dias recifenses. Sem Dopamina não há sorrisos nem futuro, não há bom dia, a cerveja não faz mais que a obrigação, as mulheres bonitas apenas compõem a paisagem e o mar é uma poça de água suja. Sem Dopamina, Deus teria muito menos amigos, mesmo que ainda passeasse por aí fazendo milagres.

Pois é, pois é. Às 19h de anteontem, eu, com baterias de fogos de ódio estourando no meu cérebro, daquelas que levam alguém a atropelar velhinhas que atravessam a rua vagarosamente, peguei minha bicicleta e saí por aí. Rodei por alguns quilômetros. Andei pelas nostálgicas paragens do Poço da Panela e Apipucos (digite no Gooogle Images, please). Chacoalhei pelo chão de paralelepípedos. A cada pedalada, lá estava ela, a Dopamina, sendo bombeada para o meu cérebro saudoso-de-nicotina-açúcar-pão-chocolate-purê-de-batata-arroz-gororoba-com-tudo-misturado. Horas depois, quilômetros mais tarde, lá estava eu, satisfeito, sem motivo algum. Ou satisfeito por enxergar em miniatura os mesmos motivos que me faziam chorar. Ou por visualizar de maneira mais nítida as razões que antes eram microscópicas demais para me fazer sorrir.

Isso me leva à seguinte questão: o que pensamos, vivemos, sentimos, o que acontece com a gente, a sorte ou azar têm alguma importância, sem Ela, a Dopamina? Um sujeito que tem tudo na vida, com um déficit Dela, é mais feliz que outro, miserável em saúde, amigos, grana, rico apenas na quantidade de Dopamina circulando pelo cérebro? Se uma substância química (mal e porcamente produzida pelo nosso corpo) é o segredo da felicidade, nossa percepção do mundo é muito mais maleável do que jamais sonhei. Diante dessa (ir)realidade, a felicidade nada mais é que a prostituta dos sentimentos, a mais volúvel das guloseimas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Galo

Nada mais importa, o Carnaval aqui no Recife é tudo. Em forma de assovio, os frevos brotam dos lábios distraídos. As conversas, mesmo que comecem sobre assuntos de maior gravidade, espontaneamente acabam em discussões sobre fantasias e blocos de rua.

Dia desses tive a verdadeira dimensão da importância da folia na vida dos pernambucanos. Uma mãe contou que recebeu uma ligação de alguém que dizia que o filho dela estava ameaçava se matar, com a boca de uma garrafa de cerveja quebrada encostada no pescoço.

"A mulher largou dele e ele tava bêbado, dizendo que daquele dia ele não passava. Aí eu disse: 'Você largue esse troço já, seu safado. Ou se mate de uma vez... porque se você morrer sábado, seu corpo vai ficar esperando no IML... que eu vou pro Galo de qualquer jeito! Não vou perder o Galo porque causa de você não, ouviu?"

Pergunta se o cara se matou?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Nuvens, cantem o barulho da chuva



As nuvens estacionaram há 20 dias sobre o Recife, sob a justificativa de um vórtice ciclônico. Os nativos tiram suas blusas do armário e gripam quase que por obrigação. Parece que a iminência da chuva oprime os filhos da claridade extrema.

Limito-me a um sorriso cifrado, daqueles que surgem quando torço para os bandidos nos filmes, enquanto todos ao meu lado choram pelo mocinho em perigo. Torço por elas, pelas nuvens. Tão etéreas que poderiam ser sugadas por aspiradores de pó, elas justificam-se. Mandam cartas com remetente e endereço: frente fria, da Argentina; vórtice ciclônico, do Atlântico; massa de ar quente, do Caribe.

De natureza gentil e delicada, mesmo tendo nas mãos os trovões e temporais, as nuvens amansam a tirânia do Sol, que penetra nas frestas, rouba a sombra, cega com sua luz até os olhos mais fechados. É possível sentir a textura macia de algodão ao pronunciar: nuvens, nuvens, nuvens. Fiquem aí, só mais algumas manhãs, tinjam o céu de cinza, encham as ruas de poças d'água, cantem o barulho da chuva.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

À deriva

À deriva, sem vontade de ligar o motor ou tocar no remo, sem vontade de chegar. Tanto faz se à deriva no Triângulo das Bermudas ou a poucos metros da praia, tanto faz, a terra sempre pareceria longínqua e pouco atraente. O sol corrói a pele e me refresco com pequenos goles de água salgada, ao mesmo tempo rasgando e afagando minha garganta. Estou suando frio. Corto pedaços da vela e transformo em cobertor. Cubro-me até a cabeça, esquecido de rotas, mapas, pontos cardeais, destinos. Mesmo de olhos fechados, a luz me persegue, atravessa minhas pálpebras, violando a escuridão à qual até os mais miseráveis têm direito. Penso: quem dera estivesse dentro de uma garrafa para ser achado por alguém.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Psicografia

Idéia nenhuma. Idéia nenhuma passa pela minha mente. É só um poço, cheio de ecos e estampidos de memórias. Sonhos que pedem socorro, amordaçados, eles parecem ridículos, ridículos. E aqui estou psicografando, psicografando esse vazio que só pode vir do além. Dramas longínquos cospem desaforos na minha cara. E eu escrevo a lápis, a lápis.

Acendo dezenas de cigarros e sinto o meu pulmão se esvaindo e o acendo também. Acendo uma tocha e boto fogo na casa e saio apagando as faíscas só pra passar o tempo.

Eu espero por ele. Sempre tenho que esperar. Mas ele nunca chega na hora, jamais. Diz que o tempo é muito diferente lá de onde vem. Diz tudo isso muito galantemente. De uma forma que faz toda essa minha impaciência parecer criancice. Me masturbo só pra passar o tempo também.

O melhor é ir até a cozinha e esquentar um café. Se ele vier agora terá de esperar, ou toma café comigo, ou nada feito. No ínfimo espaço de tempo em que coloco a água para esquentar, vejo minha vida passar sob uma trilha sonora de estalos até que me sinto esguio e poderoso, flutuando no gozo de alguém que não cheguei a conhecer. Eu tenho vontade de voar e o meu rabo rema vertiginosamente. Não posso controlar minha velocidade. Sou o mais rápido, não posso parar. Mas eles estão me alcançando, então eu volto, volto, volto, até uma caverna escura que acaba numa explosão. Meu visitante, certamente, tem noção do que é essa plenitude, a plenitude do big-bam, dos drive-ins, das coxias, dos cantos escuros.

Meu café ficou horrível.

Fico relendo os capítulos anteriores. Magníficos. Pena que dependo dele. Gostaria eu de poder fazer isso quando quisesse. Ligaria um interruptor no meu umbigo e escreveria as sentenças mais criativas e trama mais envolvente se encadearia sob custódia da irracionalidade dos meus dedos ágeis, que trotam irregulares pelo teclado do computador. Mas ele não usa computador. Só escreve a lápis. Não consigo, sinceramente, me conformar que um ser tão evoluído não tenha se acostumado com o computador.

Lembro que da primeira vez ele insistiu que eu comprasse uma pena e um tinteiro. E eu ainda não fazia idéia de como ele podia ser cabeça dura. Ainda estava pasmo com o abismo de possibilidades que ele me abriria com aquele gesto estranho que sempre faz. Uma coçada no nariz, sem o uso das mãos. Um cacoete deveras interessante, tenho que admitir. Ouço um barulho lá embaixo, mas não é ele. Ele chega sem barulho algum, sem o menor aviso, e envolve o ar com seu cheiro de eternidade. Sei que ele está perto, posso senti-lo. Então desço e vou preparar o seu jantar. A noite está gelada e os cachorros latem. Abro o quartinho dos fundos e acendo a luz. Dessa vez arrumei-lhe um belo jantar. Não há motivos para reclamações. Levanto aquele corpo amolecido e carrego-o nos ombros. Suas pálpebras piscam, mas sei que não vai acordar. Subo as escadas e coloco-o na cama - sinto sua presença no ar. As paredes mudam de cor. Minha mão coça para escrever. Meus nervos sabem muito bem, agora, o caminho para posteridade.

Como sempre, está muito bem vestido. Faz um sinal de aprovação ao olhar sua presa em cima da cama. Digo-lhe para retribuir em mais um capitulo fenomenal. Mas ele já está ocupado, devorando sua refeição. Come sem fazer barulho e chupa as entranhas com gosto. Rói cada osso e, como sempre, me espanto com o jeito com que enfia o fêmur pela garganta, feito um engolidor de espadas.

Encosta ao meu lado, lambendo os beiços finos, e elogia minha escolha, sem abrir a boca. Poderia explicar o trabalho que me deu, mas ele sabe, sabe de tudo. Posso sentir toda sua sabedoria quando coloca as mãos sobre meu ombro e eu começo a escrever vertiginosamente. Página após página é como se fosse o jorro inicial, como se ele tivesse o dom de arrebentar a comporta dos pensamentos do universo e todos estivessem ali, à minha disposição. As horas passam e eu vou me sentindo cada vez mais pleno e as páginas vão se empilhando à minha frente. Até que me sinto vazio, a comporta se fecha, e eu caio no choro, num choro de soluços desesperados, na abstinência de sua presença. Apago sobre as folhas, com lápis na mão, apago como se estivesse morto.

Acordo grogue, e sinto ânsia do cheiro acre que desprega do quarto. Minha cama desarrumada, meus pensamentos também, a tentação do suicídio na primeira mijada, o banho quente que parece lavar minha alma, se é que eu ainda tenho uma. As folhas empilhadas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

AS BELAS DO TRÁFICO *

Georgeta, em ensaio na prisão. Foto: Marcos Michael/JC Imagem

Há um ano, a romena Georgeta Albu, 20 anos, estava prestes a acabar o ensino médio. A bela jovem estava namorando e planejava fazer faculdade de direito. Fluente em seis idiomas, poderia escolher qualquer país da Europa para trabalhar quando formada. Nessa época, nem de longe suspeitava que se envolveria em uma trama na qual terminaria em uma cela com dez detentas, no Brasil, condenada por tráfico internacional de drogas.
Traficantes nigerianos viram na jovem a chance de lucrar mais de 1.000% ao levar cinco quilos de pasta-base de cocaína do Brasil para a Itália. Mulheres bonitas, de classe média e sem envolvimento com o crime, como Georgeta, são alvos cada vez mais frequentes dos aliciadores, diz a polícia. “Os traficantes procuram pessoas acima de qualquer suspeita, de boa aparência, que não despertem desconfiança”, diz o delegado do Departamento de Repressão ao Narcotráfico (Denarc) da Polícia Civil Luiz Andrey.
“Foi a tentação que me trouxe até aqui”, conta a romena, em português quase perfeito, aprendido no Brasil. Por tentação, entenda-se a chance de ganhar 2 mil. Mesmo recebendo mesada da mãe que foi para a Itália trabalhar para pagar seus estudos, Georgeta arriscou. Viajou a Itália, São Paulo e só viu o mar da costa pernambucana pela janela do avião. Acabou presa pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional do Recife, há oito meses.
Vestindo calça jeans justa, uma regata branca e maquiada, ela e outras duas reeducandas, como preferem ser chamadas, despertaram olhares de inveja – e até de cobiça – dentro da Colônia Penal Feminina do Recife, na última quarta-feira, durante sessão de fotos. “A gente já sofre tanto aqui dentro que se arruma só para mascarar a tristeza”, diz Georgeta, que tenta manter a beleza mesmo sem os cremes e xampus que enchiam a penteadeira de sua casa, em Suceava, na Romênia. A maior saudade, porém, não é dos cosméticos, mas da família. Mesmo ganhando pelo trabalho como secretária na colônia, Georgeta ainda recebe mesada da mãe.
Vestindo um curtíssimo vestido preto, A.C., 24, também faz da vaidade seu consolo. O salão de beleza da colônia dá conta da escova no cabelo e da pintura das unhas, que paga com o salário que ganha trabalhando na lanchonete, mas ela ainda sente falta da depilação. “Só tem o básico aqui”, diz a moça, que, por necessidade, trocou a cera quente pela gilete na prisão. Antes de ser presa pela PF com dois quilos de cocaína, a então aluna de pedagogia transportava a droga com a confiança de quem nunca havia sido parada pela polícia. “Acho que entrei nisso por causas das amizades. Era muito dinheiro”, justifica-se.

AMOR BANDIDO
Patricinhas do tráfico, Georgeta e A. são exceções. Entre as detidas por esse tipo de crime, a maioria é pobre e tem na sua história um amor bandido. “Os criminosos, mesmo os assaltantes, passam a lidar com tráfico quando são presos. Isso porque quem vai correr o risco são terceiros, que muitas vezes são mulheres”, afirma o delegado Carlo Marcus Correia, da PF. Essa estratégia pode ter ajudado no aumento de 233% da população carcerária no Estado, que passou de 300, em 2002, para cerca de 1.000 este ano. Entre essas detentas, uma em cada seis foi detida por tráfico.
O livro Amor bandido - as teias afetivas que envolvem a mulher no tráfico, da professora da Universidade Federal de Alagoas Elaine Pimentel, confirma a tese. “Não é só uma questão econômica. As mulheres entram para o crime também por afeto, pelo homem que amam, pela família”, afirma. Ela revela que, ao traficar, há mulheres que acreditam não estar cometendo crime algum. “O discurso mais comum é: ‘Crime é matar e roubar. Vendo a minha droga, só compra quem quer’”, diz.
A história de Ana Paula Silva, 25, parece ter saltado do livro de Elaine. Ela apaixonou-se por um criminoso aos 14 anos. Acusado de assalto e homicídio, o marido passou só o primeiro dos 11 anos do casamento em liberdade. “Nunca quis abandoná-lo para não ser covarde. Não precisava do dinheiro, só queria ajudá-lo”, diz. Com dois filhos e uma década após o início do romance, foi presa no fim de 2009. “Escutas me flagraram falando com meu marido no telefone. Eu não traficava diretamente, só levava um telefone ali, fazia depósito bancário”, conta ela, hoje a padeira da colônia, que garante ter posto um fim no amor que a levou para trás das grades.

* Matéria minha publicada na edição de domingo do Jornal do Commercio do último domingo